Ciclismo

Territórios Completos: Quando a Dificuldade de Pedalar Vira Demanda Política

Ilustração editorial: Territórios Completos: Quando a Dificuldade de Pedalar Vira Demanda Política

A Ciclocidade anunciou ontem, 2 de novembro, a sexta edição da sua Formação em Ciclomobilidade. O encontro se chama Territórios Completos: interseccionalidade e incidência política e acontece nos dias 5 e 6 de dezembro, na Ocupação 9 de Julho, em São Paulo. São 30 vagas. Trinta. Num município com mais de doze milhões de habitantes e uma rede cicloviária tão fragmentada que divide a cidade em 105 sub-redes desconectadas.

A pergunta que orienta o encontro é direta: como transformar uma dificuldade no deslocamento em uma demanda que possa ser discutida e acompanhada coletivamente? É uma pergunta simples na superfície e incendiária por baixo, porque pressupõe que quem pedala em São Paulo já enxergou o que o poder público ainda recusa ver: a bicicleta não está disponível do mesmo jeito para todo mundo.

O mapa da exclusão sobre duas rodas

Dados do Banco Mundial mostram que apenas 30% da população de São Paulo vive a até 300 metros de uma ciclovia. Trezentos metros é uma caminhada de quatro minutos. Seis quadras. E mesmo esse número esconde a desigualdade real, porque o acesso não se distribui de forma homogênea entre raças e faixas de renda: as ciclovias chegam onde o dinheiro já chegou antes.

Pesquisa publicada no World Water Congress de 2017 pelas pesquisadoras Harkot, Lemos e Santoro mostrou que apenas 12% dos ciclistas em São Paulo são mulheres. Doze por cento. O número não indica falta de interesse. Indica a soma de barreiras que a cidade construiu, peça por peça, ao longo de décadas: iluminação precária, ausência de vestiários, calçadas quebradas que tornam impossível chegar até a ciclovia com uma criança no reboque.

A infraestrutura reflete a política. E a política reflete quem foi consultado quando as decisões foram tomadas.

Quando a dificuldade de pedalar se torna uma demanda coletiva, ela para de ser um problema individual de quem usa a bicicleta e passa a ser um questionamento sobre quem a cidade foi projetada para servir.

É exatamente aí que o nome do encontro ganha peso. "Territórios completos" não é slogan de urbanismo progressista. É uma afirmação sobre o que falta. Um território completo é aquele onde você pode pedalar sem negociar a própria segurança, onde a ciclovia conecta origem e destino sem te obrigar a circular pelas margens de uma rodovia, onde o espaço público reconhece que você existe.

Incidência política não começa no plenário

A formação da Ciclocidade interessa a mim por um motivo específico: ela conecta o cotidiano do deslocamento ao vocabulário da política pública. Essa ponte é rara. Na maioria das vezes, quem pedala por necessidade nunca entra numa audiência pública. E quem vai às audiências raramente pedala por necessidade.

Incidência política costuma ser ensinada como algo que começa no plenário. Mas começa muito antes: começa quando uma pessoa nomeia o problema. Quando para de aceitar que a ciclovia termina no limite do bairro rico como se fosse lei natural. Quando entende que aquela descontinuidade no asfalto tem autor, tem orçamento aprovado, tem nome em ata de reunião.

Trinta vagas não vão resolver a fragmentação de 105 sub-redes. Não é isso que está em jogo. O que está em jogo é o processo de transformar usuários em sujeitos políticos. É diferente.

A interseccionalidade no título do encontro não é decoração acadêmica. Ela reconhece que raça, gênero e renda determinam quem sofre mais quando a ciclovia não existe, quando a iluminação falha, quando o ônibus que substituiria a bicicleta também não chega. A dificuldade não é distribuída de forma igual e, por isso, a demanda também não pode ser genérica.

Há algo de concreto no endereço escolhido para o encontro. A Ocupação 9 de Julho não é um centro de convenções. É um espaço de luta urbana no coração de São Paulo. Fazer uma formação sobre territórios nesse lugar específico é já uma declaração sobre de qual território se fala.

No dia 7 de dezembro, quando o encontro terminar e as trinta pessoas saírem pela porta da Ocupação 9 de Julho, cada uma vai voltar para o seu bairro de bicicleta, de ônibus, a pé. Algumas vão pedalando por ciclovias que existem. Outras vão cortando por ruas onde nenhuma política pública chegou ainda. A diferença entre esses dois trajetos não é geográfica. É política. E agora tem nome.

Perguntas frequentes

O que é a Formação em Ciclomobilidade Territórios Completos da Ciclocidade?

É um encontro promovido pela Ciclocidade nos dias 5 e 6 de dezembro de 2026, na Ocupação 9 de Julho, em São Paulo, com 30 vagas. O objetivo é conectar experiências cotidianas de deslocamento ao vocabulário da incidência política, com foco em interseccionalidade e mobilidade urbana.

Por que a infraestrutura cicloviária de São Paulo é considerada desigual?

Dados do Banco Mundial mostram que só 30% da população vive a até 300 metros de uma ciclovia, e esse acesso é ainda mais restrito para pessoas negras e de baixa renda. A rede cicloviária da cidade está dividida em 105 sub-redes desconectadas, o que prejudica especialmente quem pedala por necessidade nas periferias.

Por que tão poucas mulheres pedalam em São Paulo?

Pesquisa das pesquisadoras Harkot, Lemos e Santoro publicada no World Water Congress de 2017 mostrou que apenas 12% dos ciclistas em São Paulo são mulheres, reflexo de barreiras estruturais como iluminação precária, ausência de infraestrutura de apoio e rotas que atravessam áreas de risco.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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