Hoje, 13 de outubro de 2026, uma ciclovia provisória começou a funcionar na Beira-Mar de Vitória. A imagem é bonita: asfalto novo, mar ao lado, a cidade sinalizando que quer mais bicicletas nas ruas. Segundo a Sim Notícias, a infraestrutura faz parte de uma expansão maior que conecta Vitória a Vila Velha, e que foi apresentada como a maior ciclovia urbana do Brasil.
O problema não é a ciclovia. O problema é a ilusão de que construir a estrutura encerra o debate.
Infraestrutura cicloviária é necessária. Mas ela não é neutra. Ela responde a uma pergunta que raramente é feita em voz alta: para quem esta rua foi desenhada? Quando essa pergunta fica sem resposta, o espaço que deveria ser inclusivo reproduz exatamente a hierarquia que fingiu romper.
Pedalar não é lazer para todo mundo
O uso de bicicletas para ir ao trabalho tem crescido em Vitória e Vila Velha, especialmente durante a semana, segundo reportagem de A Gazeta. Esse dado importa porque ele diz que a maioria das pessoas que pedalam nessa cidade não estão fazendo isso por estilo de vida. Estão chegando ao trabalho.
Entregadores. Trabalhadores de serviços. Pessoas que calcularam que a bicicleta cabe no orçamento onde o ônibus já não cabe mais. Esse é o perfil real do ciclista brasileiro urbano, e ele raramente aparece na foto de inauguração de uma ciclovia nova.
Quando a imagem pública do ciclismo urbano é construída em torno de quem pedala por escolha, por saúde, por estética, o espaço passa a ser gerenciado para esse perfil. A iluminação, a segurança, a largura da faixa, o horário de funcionamento: tudo se orienta para o ciclista que pedala no fim de semana, não para o trabalhador que precisa chegar às seis da manhã.
Uma ciclovia que existe para ser fotografada não é a mesma coisa que uma ciclovia que existe para ser usada por quem não tem outra opção.
A expansão que ainda não chegou lá
Um estudo publicado pela Perkons sobre o papel da bicicleta na mobilidade urbana e na inclusão social aponta que a bicicleta é considerada solução essencial de transporte, especialmente para populações de baixa renda em centros urbanos. O mesmo estudo deixa claro que a infraestrutura cicloviária brasileira historicamente se concentra em áreas de maior renda e visibilidade, deixando de fora exatamente as rotas que os trabalhadores mais precisam.
Vitória está se movendo. A expansão entre Vitória e Vila Velha é real, e ela tem potencial concreto de mudar a vida de quem depende da bicicleta para trabalhar. Mas potencial não é garantia.
A garantia começa quando o projeto de uma ciclovia nova inclui, desde o desenho, a pergunta sobre quem vai pedalar nela às cinco da manhã. Quando a iluminação não é item opcional. Quando a manutenção não abandona o trecho que atravessa o bairro periférico três meses depois da inauguração.
Presença como ato político
Tem algo que aprendi pedalando, e que nenhum mapa de ciclovia consegue capturar: ocupar o espaço público enquanto homem negro, de bicicleta, em certos horários e certos trechos, ainda é lido como suspeita. A infraestrutura muda o asfalto. Ela não muda o olhar.
Isso não é argumento contra a ciclovia. É argumento para que a conversa sobre ciclismo urbano não pare na faixa pintada no chão.
Pedalar é um ato cotidiano para milhões de brasileiros que nunca chamaram isso de ativismo. Mas quando você ocupa uma via pública com o seu corpo, com a sua rotina, com a sua necessidade real, você está fazendo uma afirmação sobre quem pertence àquele espaço. Essa afirmação precisa ser sustentada por política pública, por segurança, por presença continuada do poder público, não só por um dia de inauguração.
A ciclovia da Beira-Mar vai estar lá amanhã cedo. A questão é quem vai se sentir com o direito de pedalar nela.
Perguntas frequentes
A nova ciclovia de Vitória vai beneficiar trabalhadores que usam bicicleta no dia a dia?
Tem potencial real para isso, já que conecta Vitória a Vila Velha em uma das rotas mais usadas por trabalhadores. Mas o benefício depende de infraestrutura contínua, iluminação e manutenção nos trechos periféricos, não só nos pontos centrais.
Por que o ciclismo urbano ainda é considerado um ato político no Brasil?
Porque ocupar o espaço público de bicicleta, especialmente sendo negro ou trabalhador de baixa renda, ainda enfrenta barreiras que vão além do asfalto: falta de infraestrutura nas periferias, ausência de segurança e um imaginário público que associa ciclismo a lazer de classe média.
A infraestrutura cicloviária brasileira atende quem mais precisa da bicicleta?
Segundo estudo da Perkons sobre mobilidade urbana e inclusão social, a infraestrutura cicloviária no Brasil tende a se concentrar em áreas de maior renda, deixando de fora as rotas mais usadas por trabalhadores de baixa renda que dependem da bicicleta como principal transporte.