David Mendes saiu de Viana do Castelo, no norte de Portugal, de bicicleta. O destino era a COP31, na Turquia. A mensagem, segundo a Renascença que cobriu a partida em outubro de 2025, era simples e direta: as cidades precisam ser mais seguras para quem pedala. Um homem, uma bicicleta, um apelo. A imagem parece quase poética.
Do Brasil, ela parece também impossível. Não porque faltam ciclistas corajosos por aqui. Faltam ruas que deixem você chegar vivo ao destino.
O número que ninguém quer calcular
Entre 2014 e 2024, quase 15 mil ciclistas morreram em acidentes de trânsito no Brasil, segundo levantamento da Bike Registrada. Quinze mil. É o equivalente a esvaziar uma cidade inteira de ciclistas ao longo de uma década.
Um recorte anterior, entre 2000 e 2010, já apontava 32.422 mortes no mesmo modal, representando 8,3% de todas as mortes em acidentes de trânsito no país, conforme dados publicados no Ciência e Saúde Coletiva pela Scielo. O número não surpreende quem pedala em São Paulo, Salvador ou Recife. Surpreende só quem olha de longe.
São Paulo, Bahia e Pernambuco lideram esse ranking. E se você já pedalou em qualquer uma dessas cidades, sabe que o dado não mente. A ciclovia acaba sem aviso. O carro abre a porta sem olhar. O caminhão passa a centímetros.
Pedalar no Brasil não é só um meio de transporte ou um esporte. É uma negociação constante com um espaço que não foi desenhado para te incluir.
E essa exclusão não é neutra. Ela tem endereço, tem horário e, frequentemente, tem cor.
Quem pedala e quem decide
O ciclismo de lazer e competição no Brasil tem uma estética dominante: branca, de classe média, equipada. O ciclismo de sobrevivência, o do entregador que cruza a avenida às 23h com uma mochila de 15 quilos nas costas, esse raramente aparece nos debates sobre mobilidade urbana.
São corpos diferentes ocupando o mesmo asfalto, com riscos diferentes e com proteção radicalmente diferente. A ciclovia nova fica no bairro que já tem calçada. A avenida sem acostamento fica no bairro que já não tem nada.
O ciclismo negro no Brasil existe nessa fratura. Existe no entregador que não tem escolha e no ativista que escolhe a bicicleta como posição política. A diferença entre os dois não é a bicicleta. É o acesso ao debate sobre a rua em que os dois trafegam.
O que me chama atenção nos projetos de ciclismo que crescem nas periferias brasileiras não é a bicicleta em si. É o que ela representa quando está nas mãos de alguém que o espaço público nunca convidou a existir. Pedalar vira um ato de afirmação. De presença. Às vezes, de confronto.
A COP31 como espelho
A viagem de David Mendes é um gesto. Um gesto político, calculado, com potência simbólica real. Chegar a uma conferência climática global pedalando é dizer, com o próprio corpo, que a solução já existe, que ela cabe na rua, e que o problema é a vontade de construir espaço para ela.
O Brasil vai sediar a COP30 em Belém, em 2025, e já existe pressão para que a mobilidade sustentável entre na agenda concreta, não só nos discursos. Mas a pergunta que ninguém está fazendo com clareza é: sustentável para quem?
Uma cidade mais ciclável é uma cidade menos mortal. Para todo mundo. Só que as melhorias chegam primeiro onde o lobby chega primeiro. E o ciclista negro da periferia não tem lobby. Tem quilometragem.
Então quando um homem sai pedalando de Portugal em direção à Turquia para pedir cidades mais seguras, eu penso nos 15 mil que não chegaram. Penso nos que pedalavam toda manhã, em São Paulo ou em Recife, sem nenhuma câmera acompanhando, sem nenhum manifesto no guidão. Pedalavam porque precisavam, porque era o único caminho, e o caminho os matou.
David Mendes chegou à COP. A pergunta que fica é quem chega à próxima reunião da Câmara Municipal para votar o plano cicloviário da sua cidade.
Perguntas frequentes
Quantos ciclistas morreram no Brasil na última década?
Segundo levantamento da Bike Registrada, quase 15 mil ciclistas morreram em acidentes de trânsito no Brasil entre 2014 e 2024. Os estados com maior número de mortes são São Paulo, Bahia e Pernambuco.
Por que o ciclismo é considerado um ato político no Brasil?
Porque pedalar em espaços urbanos brasileiros exige ocupar uma rua que historicamente não foi planejada para ciclistas, especialmente os das periferias. A bicicleta vira instrumento de presença e afirmação num espaço público que tende a excluir.
Qual é a conexão entre a COP31 e a segurança dos ciclistas no Brasil?
A viagem de David Mendes de Portugal à COP31 de bicicleta coloca em pauta que a mobilidade sustentável já existe como solução, mas falta vontade política para criar infraestrutura segura para ciclistas, especialmente nas periferias brasileiras.