Em setembro de 2026, a cidade portuguesa de Samora Correia instalou iluminação na ciclovia da EN118. A notícia saiu no SAPO sem grande alarde, uma nota breve sobre postes de luz numa ciclovia municipal. Mas quando li aquele título, parei. Porque sei o que significa pedalar num corredor sem luz. Sei o que sente o corpo quando a cidade te coloca numa faixa e depois esquece de você no escuro.
Não é sobre ergonomia. É sobre pertencimento. Cada poste instalado numa ciclovia é uma pergunta respondida: quem conta como usuário legítimo desta rua?
A Violência que Ninguém Nomeia
Entre 2015 e 2019, o número de mortos em estradas nacionais em Portugal cresceu 2,6%, e o número de mortos em arruamentos urbanos aumentou 3,4%, segundo dados da Estratégia de Segurança Rodoviária 2030 (Visão Zero). Esses não são números abstratos. São corpos. São pessoas que pedalavam antes de alguém decidir que aquela via não precisava de acostamento, de iluminação, de qualquer sinal de que ciclistas são esperados ali.
Portugal tem hoje a meta de reduzir em 50% os acidentes envolvendo pedestres e ciclistas até 2030, conforme o mesmo documento. Mas metas não salvam ninguém. O que salva é decisão política tomada antes do acidente, não depois.
O problema com a falta de infraestrutura cicloviária é que ela nunca aparece no boletim de ocorrência. O que aparece é "colisão", "atropelamento", "falta de atenção do condutor". A cidade que não ilumina sua ciclovia nunca é indiciada. Ela só contabiliza os mortos.
Pedalar É um Ato de Ocupação
Quando digo que o ciclismo é político, não estou falando de manifesto. Estou falando de física.
Um ciclista ocupa espaço. Desacelera o tráfego. Torna visível o que o carro apaga: que a rua foi construída para alguém específico, com um modelo específico de mobilidade, que carrega uma história específica de quem pode se deslocar com conforto e segurança.
No Brasil, essa história tem raça. Tem classe. Os entregadores de aplicativo que pedalam de madrugada em São Paulo, sem equipamento, sem ciclovia, sem iluminação, são a versão mais explícita de um sistema que terceiriza o risco para quem não tem como recusá-lo. Já os ciclistas de fim de semana com bicicletas de carbono nas ciclovias da orla representam outro recorte do mesmo espaço, com distribuição completamente diferente de proteção e visibilidade.
A infraestrutura diz, antes de qualquer lei, quem a cidade imagina quando planeja seus deslocamentos. Uma ciclovia iluminada é um reconhecimento. A ausência de luz é uma resposta também.
Samora Correia instalou postes. Isso parece pequeno. Só parece.
O Que a Luz Revela
Infraestrutura boa não é neutra. Ela redistribui quem pode circular com segurança. E circular com segurança não é apenas não morrer: é chegar sem adrenalina de sobrevivência, sem ter negociado o direito de passar a cada esquina, sem depender da boa vontade de quem dirige um veículo três vezes maior que o seu.
Para ciclistas negros e periféricos, essa negociação acontece em camadas. Há a negociação com o trânsito. Há a negociação com o olhar de quem acha que você está no lugar errado. Há a negociação com o próprio cansaço de precisar justificar sua presença num espaço que deveria ser público.
Nenhuma dessas negociações aparece nos dados de mobilidade urbana. Elas aparecem no corpo de quem pedala.
Por isso quando uma prefeitura instala iluminação numa ciclovia, o gesto tem peso desproporcional ao investimento. Não porque postes sejam caros. Mas porque dizem, em linguagem de concreto e metal, que quem pedala à noite também importa.
A EN118 vai continuar com tráfego de carros. A ciclovia vai continuar estreita do jeito que ciclovias estreitas sempre são. Mas agora tem luz. E à meia-noite, quando alguém pedalar por ali, a cidade vai estar olhando de volta.
Perguntas frequentes
Por que a iluminação de ciclovias é considerada uma questão política e não apenas técnica?
Porque a decisão de iluminar ou não uma ciclovia reflete quem a cidade reconhece como usuário legítimo do espaço público. Infraestrutura é uma forma de política: diz, antes de qualquer lei, para quem o espaço foi planejado.
Os acidentes envolvendo ciclistas estão aumentando em Portugal?
Sim. Entre 2015 e 2019, o número de mortos em arruamentos urbanos cresceu 3,4% e em estradas nacionais 2,6%, segundo a Estratégia de Segurança Rodoviária 2030 (Visão Zero). Por isso Portugal adotou a meta de reduzir em 50% os acidentes com pedestres e ciclistas até 2030.
Qual é a relação entre ciclismo e racismo no Brasil?
No Brasil, o risco de pedalar está desigualmente distribuído por raça e classe: entregadores negros e periféricos pedalizam em condições precárias e sem infraestrutura, enquanto ciclistas de lazer em áreas valorizadas têm acesso a ciclovias iluminadas e sinalizadas. Essa diferença não é acidente, é resultado de como o espaço urbano foi planejado e para quem.