Ciclismo

Valladolid Derrubou as Ciclovias e o Trânsito Explodiu. Por Que Ainda Fingimos Surpresa?

Ilustração editorial: Valladolid Derrubou as Ciclovias e o Trânsito Explodiu. Por Que Ainda Fingimos Surpresa?
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Em setembro de 2026, a cidade espanhola de Valladolid fez o que boa parte das prefeituras sonha em fazer quando a pressão dos motoristas aumenta: devolveu as faixas de ônibus e as ciclovias ao carro. A decisão foi recebida como pragmatismo. O resultado foi previsível para qualquer pessoa que entende mobilidade urbana: o trânsito piorou. Não um pouco. Explodiu.

O caso de Valladolid não é uma curiosidade europeia. É um espelho. Toda vez que uma cidade retrocede nesse debate, a justificativa é a mesma: "as ciclovias causam congestionamento." A lógica parece sensata até você perceber que ela funciona como culpar o colete salva-vidas pelo naufrágio.

A Cidade Que Escolhe a Quem Servir

Existe uma pergunta que raramente aparece nos debates de mobilidade urbana: congestionamento para quem? Quando uma ciclovia ocupa uma faixa de carro, alguém sente o incômodo. Esse alguém, em geral, é quem já tem carro, já tem tempo, já tem escolha. O ciclista que pedala porque precisa chegar ao trabalho não entra nessa conta.

Uma pesquisa publicada pelo Poder360 em 2022 mostrou que 68,1% das pessoas acreditam ser necessário reduzir faixas para veículos a fim de ampliar o espaço para ciclovias e ônibus. A maioria já chegou a essa conclusão. O que falta não é consenso popular. É vontade política para sustentar a decisão quando a minoria barulhenta acelera o motor e buzina.

Valladolid cedeu à buzina. E o trânsito piorou.

A ciclovia não cria congestionamento. Ela revela que o modelo construído em torno do carro individual sempre foi insustentável, e que manter esse modelo custa caro para quem nunca teve carro.

Faixas exclusivas para ônibus aumentam a velocidade e a confiabilidade do transporte público. Quando somem, o ônibus volta a enfileirar com o restante do tráfego, e quem depende do transporte coletivo, a maioria da população nas grandes cidades brasileiras, paga o preço em horas perdidas. O carro individual recupera a faixa. O trabalhador perde o horário.

A Rua Como Território Disputado

Quando pedalo por uma cidade brasileira, a sensação não é de liberdade imediata. É de cálculo constante. Qual rua tem ciclovia? Qual ciclovia está bloqueada por um carro estacionado? Qual cruzamento o motorista vai ignorar a minha presença? Esse cálculo é mais intenso para quem carrega, junto com a bicicleta, marcadores que já sinalizam ao trânsito que você não deveria estar ali.

O ciclismo negro no Brasil opera nessa camada dupla. A disputa pelo espaço físico da rua e a disputa simbólica pelo direito de existir nesse espaço sem ser tratado como estorvo ou suspeito. Quando uma prefeitura remove uma ciclovia, ela não remove apenas a infraestrutura. Remove a linguagem oficial que diz: este espaço também é seu.

A bicicleta como meio de transporte político não é metáfora. É literal. Ocupar uma faixa de ciclovia em bairro nobre, ser negro, ser trabalhador, e não pedir licença para estar ali, isso já é um ato que incomoda. A infraestrutura que sustenta esse ato tem peso real.

O ativismo ciclista no Brasil, e aqui me refiro ao conjunto de coletivos, projetos e pessoas que insistem em pedalar onde o sistema preferiria que não pedalassem, entende isso na prática. Não é só sobre saúde, meio ambiente ou eficiência. É sobre quem tem direito à cidade.

O Que Valladolid Nos Deve de Volta

Existe um ciclo que se repete em vários países. A cidade investe em ciclovias e faixas de ônibus. Uma parcela de motoristas reclama. A imprensa transforma a reclamação em pauta. O político recua. O trânsito piora. A imprensa culpa a ciclovia que foi removida.

Valladolid fechou esse ciclo em tempo recorde e entregou a evidência em forma de congestionamento. A esperança, ingênua talvez, é que o erro documentado seja mais difícil de repetir. Mas cidades repetem esses erros porque a pressão de quem tem carro chega organizada, financiada e com voz nos conselhos municipais. A pressão de quem pedala ou depende do ônibus chega fragmentada, quando chega.

O que muda esse cenário não é apenas dado ou estudo. É presença. É a bicicleta parada na faixa, no horário de pico, em bairro que preferia não ver aquela bicicleta ali. É o coletivo que documenta, que aparece na audiência pública, que nomeia o que está acontecendo.

Valladolid vai ter que reconstruir o que derrubou. Ou vai viver com o trânsito que escolheu. De qualquer forma, o espanto já foi embora. O que fica é a pergunta que toda cidade precisa responder antes de remover uma ciclovia: a rua é de quem, exatamente?

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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