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A IA é decidida em outro lugar, e isso não é metáfora

Ilustração editorial: A IA é decidida em outro lugar, e isso não é metáfora
Ouça este ensaio · 8 min · A Interseção
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A frase circula como se fosse análise: "a inteligência artificial é decidida em outro lugar." O Geledés publicou isso em outubro de 2025, ancorado num debate sobre IA e eleições, e a frase virou consenso rápido demais. Consenso rápido é quase sempre sinal de que alguém parou de pensar antes da hora.

O problema não é que a frase está errada. É que ela está certa de um jeito que a maioria prefere não detalhar. Porque quando você detalha, o desconforto cresce.

Um chip, duas empresas, nenhuma alternativa em escala

A NVIDIA desenha os chips que treinam os grandes modelos de IA. A TSMC, em Taiwan, fabrica esses chips. Só a TSMC. Segundo dados do BlockTrends, a empresa detém mais de 60% do mercado global de fabricação de semicondutores. Não existe substituto operando nessa escala agora.

A NVIDIA, por sua vez, respondeu por 50% do mercado de chips fabless em 2024 e gerou uma receita de US$ 125,7 bilhões em 2025, segundo levantamento do Teletime. Para ter referência: o mercado global inteiro de semicondutores movimentou US$ 793 bilhões no mesmo ano. Uma empresa, sozinha, capturou quase 16% disso.

Não é dominância de mercado no sentido clássico. É um gargalo físico. O hardware que sustenta a IA moderna passa, literalmente, por um único ponto de fabricação no mundo. Qualquer crise geopolítica em Taiwan, qualquer sanção comercial, qualquer decisão tomada em Cupertino ou Santa Clara, reverbera diretamente na capacidade de qualquer país de treinar, atualizar ou escalar seus próprios modelos.

Soberania digital não é uma questão de software. É uma questão de quem controla o silício, onde ele é feito e sob quais condições ele atravessa as fronteiras.

Quando o debate sobre IA nas eleições aparece, a conversa costuma girar em torno de deepfakes, desinformação e manipulação algorítmica. Tudo isso é real. Mas existe uma camada anterior, mais estrutural, que raramente entra na discussão: quem tem acesso à infraestrutura para construir e auditar os modelos que vão circular nessa eleição?

O que está em jogo quando a infraestrutura não é sua

Países que dependem completamente de infraestrutura de IA externa não conseguem auditar o que não controlam. Podem usar os modelos, integrar as APIs, consumir os resultados. Mas não conseguem abrir o capô e verificar o que está dentro, muito menos impor seus próprios critérios de governança onde o código foi escrito.

Isso importa para eleições de um jeito muito concreto. Modelos de linguagem treinados em contextos culturais e linguísticos específicos carregam vieses desses contextos. Quando esses modelos chegam aqui, sem adaptação e sem transparência sobre como foram construídos, eles não são neutros. Nunca foram.

A dependência de hardware cria uma dependência de modelo, que cria uma dependência de viés. É uma cadeia. E o elo mais fraco dessa cadeia não é o algoritmo: é a ausência de capacidade local para questioná-lo.

Não estou defendendo isolamento tecnológico. Isso seria ingênuo e ineficaz. A questão é diferente: um país que não investe em capacidade própria de computação de alta performance, formação técnica em IA e marcos regulatórios com dentes está, na prática, terceirizando decisões sobre sua própria democracia.

E terceirização de democracia não é exatamente o tipo de contrato que você pode renegociar quando as condições mudam.

A eleição como teste de soberania

O que o Geledés tocou, mesmo que de forma comprimida, é uma questão de soberania que vai muito além do ciclo eleitoral. Eleição é o momento mais visível, mas a infraestrutura que vai moldar como candidatos são percebidos, como notícias se propagam e como dados de eleitores são processados opera vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano.

Governança de IA não é um problema técnico à espera de uma solução técnica. É um problema político que exige escolhas políticas. Onde o dado é armazenado. Quem pode auditá-lo. Que modelos têm acesso a ele. Sob que lei o resultado do processamento responde.

Essas perguntas precisam de resposta antes da urna abrir, não depois.

O chip continua sendo desenhado na Califórnia. Fabricado em Taiwan. Treinado com dados que raramente incluem o Sul Global como sujeito, quase sempre como objeto de análise. Enquanto isso, a frase "a IA é decidida em outro lugar" segue circulando como diagnóstico, quando na verdade é só o começo da pergunta.

Perguntas frequentes

Por que a dependência de chips de IA importa para as eleições brasileiras?

Países que não controlam a infraestrutura de hardware e os modelos de IA não conseguem auditar os vieses e as decisões embutidas nos sistemas que circulam durante campanhas eleitorais. Isso significa que parte do ambiente informacional de uma eleição é moldada por escolhas feitas fora do país, sem transparência nem prestação de contas local.

Qual é a concentração real no mercado de chips para IA?

A TSMC fabrica mais de 60% de todos os chips contratados no mundo, e a NVIDIA respondeu por 50% do mercado de chips fabless em 2024, gerando uma receita de US$ 125,7 bilhões em 2025, segundo dados do Teletime e BlockTrends. Não existe alternativa operando nessa escala, o que torna o gargalo físico, não apenas comercial.

Governança de IA resolve o problema de soberania tecnológica?

Regulação é necessária, mas insuficiente sozinha. Sem investimento em capacidade computacional própria e formação técnica local, um país pode ter leis de IA sem ter condição real de auditá-la ou questioná-la onde ela é construída.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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