A KODIE Academy anunciou em setembro de 2026, com patrocínio da Empower, a abertura de 600 vagas gratuitas para uma formação online em Inteligência Artificial voltada a desenvolvedores, com aulas ao vivo. A notícia circulou no Notícia Preta e foi bem recebida. E merece ser. Uma iniciativa desse porte, com esse recorte, importa.
Mas vou ser direto: o problema do mercado de IA no Brasil nunca foi a falta de cursos. É outra coisa, mais difícil de nomear e mais difícil de resolver.
Os números dizem uma coisa, o mercado faz outra
Segundo o Experience Club, as vagas que exigem conhecimentos em IA saltaram de 63 mil para 182 mil em um único ano, representando 3,6% do total de vagas no país. A Alura aponta que a busca por profissionais com conhecimento em IA cresceu 306% no mesmo período. Não é escassez de oportunidade. É escassez de preparo.
E preparo não é a mesma coisa que certificado.
O que o mercado compra quando contrata alguém para uma função que envolve IA não é a presença num curso. É a capacidade de transformar um modelo em decisão, uma API em produto, um dado bruto em algo que alguém realmente usa. Isso não aparece num diploma de conclusão. Aparece num portfólio, num projeto real, num problema que você escolheu resolver antes de alguém mandar.
Cursos gratuitos abrem portas. Mas a porta abre para um corredor que exige mais do que o curso entregou.
Quem ocupa essas vagas, e quem não ocupa
Há um dado que raramente aparece nas manchetes sobre o boom de IA: as 182 mil vagas existem, mas não estão distribuídas por igual. Nem geograficamente, nem racialmente, nem por gênero. O mercado de TI brasileiro cresceu 18,5% em 2025, acima da média mundial, segundo levantamento do portal Prepara. Cresceu para quem já estava dentro.
Iniciativas como a da KODIE Academy importam precisamente porque tentam deslocar esse eixo. Quando uma formação gratuita chega pelo Notícia Preta, ela não está apenas anunciando um curso. Está fazendo uma escolha sobre a audiência que quer formar.
Acesso sem pertencimento é só uma fila diferente. O que muda de verdade é quando a pessoa que conclui o curso encontra um ambiente que reconhece o que ela aprendeu.
Esse é o nó. Não é o conteúdo do curso. É o que acontece depois.
Um desenvolvedor negro que termina uma formação em IA e entra num processo seletivo ainda navega vieses que nenhuma trilha de aprendizado resolve. Um profissional da periferia que domina os fundamentos de machine learning ainda precisa construir uma rede que o conecte às vagas que a Alura e o Experience Club mapearam. Essas pontes não surgem automaticamente com o certificado.
O que uma formação precisa entregar além do conteúdo
Não estou sugerindo que cursos gratuitos são insuficientes por natureza. Estou dizendo que o que torna uma formação transformadora não é só o currículo, é a estrutura ao redor dele.
Mentoria com profissionais que já estão no mercado. Projetos com empresas reais, ainda que pequenas. Comunidade que continua ativa depois da última aula ao vivo. Acesso a referências que se parecem com quem está aprendendo, porque isso importa mais do que as pessoas admitem.
O crescimento anual de 21% na demanda por especialistas em IA, segundo levantamento da Cruzeiro do Sul Virtual, não vai esperar que as estruturas de suporte se ajustem sozinhas. Quem entrar bem preparado vai ocupar esse espaço. A questão é quem define "bem preparado" e quem fica fora dessa definição por razões que nada têm a ver com capacidade.
As 600 vagas da KODIE Academy são concretas. O que se constrói com elas depende de algo que o edital não consegue garantir: que as pessoas que terminarem o curso saibam exatamente onde levar o que aprenderam.
E isso, mais do que qualquer plataforma, é o que ainda precisa ser construído.
Perguntas frequentes
Vale a pena fazer um curso gratuito de IA para entrar no mercado de tecnologia?
Sim, cursos gratuitos são um ponto de entrada real, especialmente quando incluem projetos práticos e comunidade ativa. O diferencial está em usar o curso para construir um portfólio concreto, não apenas acumular certificados.
Quantas vagas de IA existem no Brasil em 2025?
Segundo o Experience Club, o número de vagas que exigem conhecimentos em IA saltou de 63 mil para 182 mil em um ano, representando 3,6% do total de vagas no país.
Por que profissionais negros ainda têm dificuldade de entrar no mercado de IA mesmo com formação?
Vieses nos processos seletivos e a falta de redes de contato dentro do setor criam barreiras que nenhum curso resolve sozinho. Iniciativas com recorte racial, como a da KODIE Academy, tentam deslocar esse eixo, mas o ambiente de trabalho também precisa mudar.