Tecnologia

5,6 Milhões de Lares: Quando os Dados Sobre Fome Chegam Antes da Política Que os Lê

Ilustração editorial: 5,6 Milhões de Lares: Quando os Dados Sobre Fome Chegam Antes da Política Que os Lê
Ouça este ensaio · 8 min · A Interseção
Ouça no Spotify ↗

Em 2023, 894 mil lares com pessoas acima de 60 anos estavam em insegurança alimentar grave no Brasil. Um ano depois, esse número recuou para 744 mil, segundo levantamento feito a partir dos dados da PNAD Contínua do IBGE, divulgado em setembro de 2026. É uma queda real, de 150 mil famílias, e merece ser reconhecida como tal.

Só que 5,6 milhões de lares com idosos ainda enfrentam algum nível de insegurança alimentar, o que representa 21,8% do total, de acordo com os mesmos dados publicados pela Folha de Pernambuco. Um em cada cinco lares. E aqui é onde os dados param de ser reconfortantes e começam a fazer uma pergunta mais incômoda: o que fazemos com um número depois que ele aparece numa pesquisa?

O dado não age sozinho

Existe uma crença razoavelmente difundida de que coletar e publicar dados já é, por si só, uma forma de resolver um problema. A lógica é sedutora: tornamos o invisível visível, e a visibilidade gera pressão, e a pressão gera mudança. Em alguns contextos, funciona assim.

Mas existe uma lacuna enorme entre o dado existir e o dado ser usado. Entre aparecer num relatório do IBGE e virar política pública desenhada para aquele grupo específico, naquela condição específica. A tecnologia de coleta melhorou de forma impressionante nas últimas décadas. A tecnologia de interpretação e resposta ainda engatinha.

Quando falo em tecnologia de interpretação, não estou falando de IA ou de machine learning, embora possam ajudar. Estou falando de algo mais básico: a capacidade institucional de receber um número, entender o que ele representa em termos humanos, e agir com essa informação dentro de um prazo que faça diferença para quem está passando fome agora.

Um dado sobre fome tem uma data de validade. Quando ele chega ao tomador de decisão dois anos depois da coleta, já passou da hora para quem estava no número.

A PNAD Contínua do IBGE é uma das ferramentas estatísticas mais robustas que o Brasil tem. Ela captura realidades que de outra forma seriam invisíveis para o planejamento público. Mas o ciclo entre coleta, consolidação, publicação e resposta é lento por design, e quase nenhuma iniciativa de tecnologia cívica ainda conseguiu resolver isso de forma sistemática.

Quem mora dentro desse número

Idosos em insegurança alimentar não são uma categoria abstrata. São, em grande parte, pessoas que vivem de benefícios previdenciários fixos, em domicílios com renda per capita baixa, muitas vezes sozinhas ou dependendo de redes familiares já sobrecarregadas. A inflação de alimentos corrói o poder de compra de quem não tem salário variável para compensar.

A tecnologia tem chegado ao envelhecimento pela porta dos gadgets: relógios que monitoram batimentos, aplicativos de telemedicina, plataformas de entrega. Tudo isso tem valor. Mas nenhum aplicativo de delivery resolve a equação de quem não tem renda para pagar pelo que chega na porta.

O que me chama atenção não é a limitação da tecnologia em si. É a seletividade de para quem ela é projetada. Os sistemas mais sofisticados de personalização e antecipação de necessidades foram construídos para quem já tem acesso, renda e conectividade. Para os 5,6 milhões de lares com idosos em situação de vulnerabilidade alimentar, a inovação que chegou foi basicamente o Pix, que ajuda na transferência de benefícios, e pouca coisa mais.

Tem algo revelador nisso. Quando a tecnologia encontra um problema complexo e demograficamente específico, mas que não representa um mercado lucrativo imediato, ela costuma desviar o olhar. Os dados sobre esse grupo existem. A capacidade técnica para processá-los e criar respostas adaptadas também existe. O que falta é outra coisa.

O que o número pede de quem sabe lê-lo

Qualquer pessoa que trabalha com dados, sistemas ou governança tem uma escolha prática toda vez que encontra um número assim. Pode tratá-lo como informação de fundo, como contexto, como slide numa apresentação sobre desigualdade. Ou pode perguntar: que sistema produziu esse resultado, e o que precisaria mudar nesse sistema para que o número fosse diferente?

Essa segunda pergunta é mais difícil porque exige sair do conforto da análise e entrar no desconforto do desenho. E o desenho de sistemas para populações vulneráveis raramente aparece nos portfólios de quem constrói tecnologia no Brasil.

A queda de 5,9 milhões para 5,6 milhões de lares entre 2023 e 2024 é um progresso. Não é pequeno para quem saiu dessa conta. Mas o ritmo dessa queda, diante da escala do problema, sugere que o que está funcionando ainda é insuficiente, e que muito do que poderia funcionar ainda não foi sequer tentado.

Fico pensando nos 744 mil lares que ainda estão na categoria mais grave. Não como estatística. Como endereços. Como cozinhas. Como a pergunta de o que tem para jantar hoje, sem resposta certa.

Perguntas frequentes

Quantos lares com idosos ainda vivem em insegurança alimentar no Brasil?

Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE publicados em 2026, 5,6 milhões de lares com pessoas acima de 60 anos enfrentavam algum nível de insegurança alimentar em 2024, o que representa 21,8% do total desse grupo.

A situação de insegurança alimentar entre idosos melhorou nos últimos anos?

Sim, houve uma queda: em 2023 eram 5,9 milhões de lares nessa condição, e em 2024 esse número recuou para 5,6 milhões. A insegurança alimentar grave também diminuiu, de 894 mil para 744 mil lares, conforme o levantamento baseado na PNAD Contínua do IBGE.

Qual é o papel da tecnologia na resolução da insegurança alimentar entre idosos?

A tecnologia tem ferramentas para coletar, processar e cruzar dados sobre populações vulneráveis, mas o problema central não é técnico: é a ausência de vontade institucional e de mercado para projetar sistemas que sirvam a quem não representa consumidor lucrativo imediato.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
← Voltar ao blog