Tecnologia

Quando o algoritmo não te vê: exclusão, audiovisual e o que os dados escondem sobre mães negras

Uma pesquisa divulgada pelo Grupo Nexa Cine em agosto de 2026, conduzida com 646 mães negras de várias regiões do Brasil, chegou a um número que não deveria surpreender ninguém, mas ainda assim incomoda: 65,3% dessas mulheres relatam que não conseguem entrar no setor audiovisual. O setor que produz histórias. O setor que decide o que o país vê de si mesmo.

O problema não é só cultural. É estrutural. E quando algo é estrutural, a tecnologia, as plataformas, os sistemas de recomendação, os algoritmos de contratação, todos eles herdam e amplificam essa estrutura. É sobre isso que quero conversar.

O dado que o mercado prefere não ler

Segundo a pesquisa do Grupo Nexa Cine, 68,3% dessas mesmas mães negras querem iniciar uma carreira no audiovisual. Dois números lado a lado que contam uma história de desejo e bloqueio. Não é falta de interesse. Não é falta de capacidade. É uma porta que simplesmente não abre.

79,7% das entrevistadas avaliaram que o audiovisual brasileiro ainda não é inclusivo com a comunidade negra. Isso não é percepção subjetiva. É o diagnóstico de quase 8 em cada 10 pessoas dentro do próprio ecossistema que o mercado diz querer incluir.

Quando a maioria das pessoas de um grupo diz que a porta está fechada, o problema não é a percepção delas. É a porta.

O que me chama atenção é que esse tipo de dado costuma circular por um dia nas redes, ganhar um post de "que importante!", e desaparecer. O mercado segue com seus painéis de diversidade, seus relatórios ESG, e o número não muda. Porque o número não muda com discurso. Muda com acesso, com infraestrutura, com redesenho de processos.

O que a tecnologia tem a ver com isso

Muito. Sistemas de triagem automatizada de currículos, plataformas de casting digital, algoritmos de distribuição de conteúdo, todos esses mecanismos são treinados com dados históricos. E dados históricos num país como o Brasil carregam décadas de exclusão embutida.

Um sistema de recomendação que aprende com o passado vai recomendar o passado. Se o audiovisual brasileiro historicamente excluiu mães negras, o algoritmo não vai corrigi-lo por conta própria. Ele vai otimizá-lo.

Isso é o que a literatura de IA chama de viés de retroalimentação. O modelo aprende que certos perfis "não performam bem" em determinados contextos, porque esses perfis nunca tiveram a chance de performar. E o ciclo se fecha sobre si mesmo, invisível, automático, legitimado pela aura de objetividade que a tecnologia carrega.

A questão de governança de IA que ninguém quer colocar na pauta é simples e desconfortável: quem auditou os critérios de seleção das plataformas de casting? Quem revisou os dados de treino dos sistemas que filtram profissionais criativos no Brasil? Quem é responsável quando um algoritmo reproduce exatamente o preconceito que o discurso corporativo diz combater?

Redesenhar sistemas exige intenção, não só tecnologia

Acredito que o problema central não é a falta de ferramentas. É a falta de intenção de redesenho. Há tecnologia suficiente disponível hoje para construir sistemas de seleção que compensem viés histórico, que priorizem grupos sub-representados, que tornem visível o que foi sistematicamente invisibilizado. O que falta é a decisão de usá-la com esse propósito.

A pesquisa mostra que 55,1% das respondentes estão concentradas na região Sudeste, o que sugere que o problema não é geográfico nem de escassez de talento num polo específico. O talent pool existe. Ele está presente, organizado o suficiente para responder a uma pesquisa, e excluído o suficiente para não conseguir entrar pela porta principal.

Quando uma plataforma de streaming decide investir em "conteúdo diverso" mas os processos de seleção de roteiristas, diretoras e produtoras continuam os mesmos de sempre, a tecnologia está servindo ao marketing, não à transformação. São coisas distintas. E confundi-las é uma escolha.

Uma mãe negra com um filho, que mora em São Paulo, que quer trabalhar com audiovisual e não consegue entrar, não precisa de um painel sobre representatividade. Ela precisa que o sistema que processa sua candidatura não a descarte antes de um humano sequer ler o nome dela.

Perguntas frequentes

O que a pesquisa do Grupo Nexa Cine revelou sobre mães negras no audiovisual?

A pesquisa, conduzida com 646 mães negras, mostrou que 65,3% delas relatam não conseguir entrar no setor audiovisual brasileiro, mesmo que 68,3% demonstrem desejo de iniciar uma carreira na área.

Qual é a relação entre algoritmos e a exclusão de profissionais negros no mercado criativo?

Sistemas automatizados de triagem e seleção são treinados com dados históricos que já carregam padrões de exclusão. Sem auditoria e redesenho intencional, esses algoritmos tendem a reproduzir e amplificar os mesmos vieses do passado.

Tecnologia pode ajudar a resolver esse problema de acesso e inclusão?

Sim, existem abordagens técnicas para compensar viés histórico em sistemas de seleção, mas elas precisam ser adotadas com intenção explícita. A tecnologia sozinha não corrige exclusão estrutural se os critérios de design continuarem os mesmos.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
← Voltar ao blog