Em agosto de 2026, o Sebrae divulgou um levantamento feito com dados do IBGE que deveria ter parado o noticiário de economia por dias. Pessoas negras representam 62,3% dos empreendedores com negócios em funcionamento em Pernambuco. São 663,5 mil pessoas à frente de empreendimentos. Maioria absoluta. E mesmo assim, o rendimento médio de um empreendedor negro no estado é de R$ 2.334,28, enquanto o de um empreendedor branco chega a R$ 4.155,25, segundo o mesmo levantamento divulgado pela Notícia Preta. Uma diferença de 78%.
O que esses números descrevem não é uma falha de esforço. É a geometria do racismo estrutural aplicada ao mercado. E o que me interessa aqui, especificamente, é uma pergunta que pouca gente faz quando o assunto chega às mesas de inovação e tecnologia: se a IA e as ferramentas digitais estão transformando o empreendedorismo, para quem essa transformação está sendo projetada?
A tecnologia não é neutra, ela herda os vieses de quem a treina
Existe uma narrativa sedutora no ecossistema de tecnologia: a de que as ferramentas digitais são equalizadoras. Que um pequeno negócio em Caruaru pode competir com uma empresa de São Paulo se tiver acesso ao mesmo software, à mesma plataforma, ao mesmo algoritmo de recomendação.
Só que algoritmos não nascem no vácuo. Sistemas de crédito automatizado aprendem com históricos de concessão que já eram racialmente desiguais. Ferramentas de análise de mercado são treinadas com dados de consumidores cujo perfil raramente é o do empreendedor negro do Nordeste. Plataformas de marketing digital otimizam para padrões de comportamento que, com frequência, refletem o consumidor de maior renda.
Quando um sistema de IA decide quem recebe crédito, quem aparece no topo das buscas, ou quem a plataforma de e-commerce impulsiona, ele não está sendo neutro. Ele está perpetuando, em escala e em velocidade, as mesmas desigualdades que os dados de Pernambuco tornam visíveis.
Dados não mentem, mas dados sem contexto enganam. O número de 62,3% parece conquista até você ver o 78% do lado. Aí ele vira diagnóstico.
A questão não é tecnologia sim ou não. A questão é: quem está na sala quando os sistemas são desenhados? Quem está nos dados de treinamento? Quem define o que é "sucesso" no modelo?
Governança de IA como pauta de equidade racial
Governança de inteligência artificial ainda é tratada como assunto de compliance corporativo ou de regulação estatal. É vista como técnica, árida, distante da vida real.
Ela não é.
Cada decisão sobre como um modelo é auditado, quais variáveis são consideradas proxy discriminatório, se um sistema vai ou não ser explicável para o usuário final, essas decisões têm consequências diretas para quem já começa em desvantagem. O empreendedor negro de Pernambuco que leva um "não" automatizado de uma fintech não recebe explicação. Ele recebe uma tela.
A União Europeia colocou isso em lei com o AI Act, que exige avaliações de risco para sistemas de alto impacto, incluindo crédito e emprego. O Brasil tem a Lei Geral de Proteção de Dados e debates em curso sobre regulação de IA, mas a agenda de equidade racial dentro dessas discussões ainda engatinha. As vozes que precisam estar nessa mesa, na prática, raramente estão.
Não estou falando de cotas em algoritmos. Estou falando de algo mais fundamental: a obrigação de auditar se um sistema produz resultados sistematicamente piores para grupos específicos, e de agir quando produz. Isso é governança. Isso é o mínimo.
O que a tecnologia pode fazer quando é construída com intenção
Existem contraexemplos. Iniciativas de open banking que priorizam dados alternativos de comportamento financeiro em vez de histórico de crédito formal chegam mais perto do empreendedor que nunca teve conta em banco. Ferramentas de gestão financeira pensadas para negócios informais reduzem a barreira de entrada. Comunidades de desenvolvedores negros que constroem soluções para suas próprias realidades criam produtos que o mercado majoritário nunca imaginaria.
O padrão entre esses casos não é generosidade corporativa. É intencionalidade no design desde o início. É perguntar, antes de construir: quem esse sistema vai prejudicar? Quem vai ficar de fora? Quem a métrica de sucesso não captura?
Tecnologia construída sem essa pergunta não é neutra. É um espelho do status quo, só que mais rápido e mais difícil de questionar.
663,5 mil empreendedores negros em Pernambuco. Maioria do mercado. E um rendimento médio que não chega à metade do que recebe um concorrente branco. Quando a próxima plataforma de crédito, a próxima ferramenta de gestão, o próximo sistema de recomendação for ao ar, alguém vai ter perguntado o que esse número significa? Ou vai ter olhado para ele e chamado de outlier?