Tecnologia

Segurança digital não é privilégio: o que a REPCONE revela sobre quem a tecnologia protege de verdade

Ouça este ensaio · 6 min · A Interseção
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Até o dia 5 de agosto, mulheres latinas podiam se inscrever gratuitamente na segunda edição da Rede de Proteção Digital para Comunicadoras Negras, a REPCONE. A iniciativa é da Rede de Jornalistas Pretos e vai além de um curso de cibersegurança: inclui apoio psicossocial, orientação jurídica e, agora, o lançamento do LATINAS IA, um agente digital que oferece suporte 24 horas para mulheres em situação de vulnerabilidade. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e nenhuma dela por acaso.

O contexto importa. O Ministério das Mulheres registrou um aumento de 188,6% nas denúncias de violência de gênero no ambiente digital entre janeiro e maio deste ano, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Quase 200%. Não é uma tendência. É uma escalada. E ela chega num ano eleitoral, quando comunicadoras negras e indígenas estão entre as mais expostas a ataques coordenados, desinformação e assédio sistemático.

A lacuna que o mercado não fecha

Existe uma conversa paralela que acontece em eventos de tecnologia no mundo inteiro. Fala-se em privacidade por design, em IA responsável, em frameworks de governança de dados. São discussões sérias e necessárias. Só que essa conversa costuma acontecer em inglês, num hotel caro, para uma plateia que já tem acesso a advogados, a planos corporativos de segurança, a equipes de TI.

O que a REPCONE faz é outra coisa. Leva cibersegurança prática para quem está na linha de frente da informação, sem o amparo institucional que as grandes redações oferecem, muitas vezes operando sozinha num celular com dados limitados.

Segurança digital não é técnica neutra. Cada camada de proteção pressupõe tempo, dinheiro, alfabetização tecnológica e acesso a dispositivos. Quem tem menos desses recursos carrega mais risco. Essa não é uma falha de mercado que vai se corrigir sozinha. É uma escolha estrutural sobre quem merece ser protegido.

Quando um agente de IA é treinado para atender mulheres em situação de vulnerabilidade às três da manhã, em português, com sensibilidade cultural, alguém tomou uma decisão deliberada sobre para quem a tecnologia deve trabalhar. Essa decisão é política antes de ser técnica.

O que o LATINAS IA diz sobre o futuro da IA governada com propósito

O lançamento do LATINAS IA junto com a formação não é detalhe. É o argumento central da iniciativa. A proteção não termina na aula, não termina no certificado. Ela precisa estar disponível no momento em que a ameaça aparece, que pode ser domingo à meia-noite.

Acredito que a IA mais relevante dos próximos anos não vai ser aquela com o maior número de parâmetros nem a que responde mais rápido em inglês. Vai ser a que resolve problemas reais para pessoas que o mercado ignorou. Um agente treinado para apoiar mulheres negras e latinas em crise digital é, tecnicamente, um sistema de resposta a incidentes. Só que com escuta, com contexto cultural, com encaminhamento jurídico.

Isso é governança de IA na prática. Não o documento de política que fica na gaveta da empresa. A escolha concreta de quem o sistema serve, como ele serve, e o que acontece quando ele erra.

O campo de AI governance ainda é dominado por organizações do Norte Global definindo princípios que serão aplicados no Sul Global. A REPCONE e o LATINAS IA viram esse fluxo. Quem conhece o problema constrói a solução.

Ano eleitoral amplifica tudo

O Brasil chega às eleições de 2026 num ambiente de informação profundamente fragmentado. Deepfakes ficaram baratos. Campanhas de desinformação se profissionalizaram. E as primeiras vítimas de ataques coordenados são, quase sempre, mulheres negras que cobrem política, que têm audiência nas periferias, que falam o que o poder prefere que fique em silêncio.

Ensinar uma comunicadora a proteger suas contas, reconhecer phishing, responder a um vazamento de dados, não é só higiene digital. É preservar a pluralidade da informação que chega ao eleitor. Quando uma jornalista é silenciada por ataques digitais, quem perde não é só ela.

O que me chama atenção nessa iniciativa é a recusa em esperar. Esperar que as plataformas ajam. Esperar que o Estado regule. Esperar que o mercado produza soluções acessíveis. A REPCONE decidiu que a proteção começa agora, com os recursos disponíveis, para quem precisa hoje.

Em algum lugar neste momento, uma mulher termina o módulo de proteção de dados num tablet emprestado, anota o número do LATINAS IA no caderno, e volta a publicar. Esse ato pequeno, quase invisível, é exatamente o tipo de coisa que a tecnologia deveria tornar possível para todo mundo.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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