Paternidade

Sérgio Malheiros tem 27 anos de carreira e 33 de idade. Isso me diz algo sobre o que a gente passa adiante.

Ilustração editorial: Sérgio Malheiros tem 27 anos de carreira e 33 de idade. Isso me diz algo sobre o que a gente passa adiante.
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Sérgio Malheiros tem 33 anos e 27 de carreira. Faz as contas: ele entrou no audiovisual antes de completar uma década de vida. Em outubro de 2026, o Mundo Negro publicou uma entrevista em que ele reflete sobre o protagonismo negro na segunda temporada de Amor da Minha Vida e sobre os caminhos que ainda estão sendo abertos. Uma frase ficou comigo: ele não falou de chegada. Falou de abertura de caminho.

Essa distinção importa. Chegar é diferente de abrir passagem. Um filho que vê o pai chegar aprende que o destino é possível. Um filho que vê o pai abrir caminho aprende que o trajeto pertence a ele também.

O dado que ninguém questiona no audiovisual

A trajetória de Malheiros existe dentro de um contexto que os números tornam difícil de ignorar. A população brasileira se autodeclara negra ou parda em 55,8%, segundo o Gente Globo. Mas no cinema brasileiro, apenas 13,3% do elenco é composto por atores negros, segundo levantamento da PUC-SP. São dois mundos que não se reconhecem um no outro.

O dado mais perturbador, na minha leitura, não é o desequilíbrio em si. É o que ele ensina às crianças que crescem vendo telas.

Uma criança negra que passa a infância sem se reconhecer em protagonistas aprende, de forma silenciosa e sistemática, que protagonismo não é para ela. Nenhum adulto precisa dizer isso em voz alta. A ausência fala.

Quando um pai negro escolhe aparecer, seja na tela, na ciclovia, na reunião de pais ou simplesmente na mesa do jantar, ele está contrariando uma narrativa que o mundo passa décadas construindo.

Malheiros entrou cedo porque alguém abriu uma porta. Mas ele ficou porque teve o que sustentar a permanência. E agora, aos 33, a entrevista que ele dá não é sobre si mesmo: é sobre o que a presença dele significa para quem ainda não chegou.

Presença como herança

Paternidade me ensinou que herança não tem nada a ver com o que você declara. Tem tudo a ver com o que você faz quando acha que ninguém está prestando atenção.

Meu filho não vai lembrar dos discursos. Vai lembrar de como eu entrei numa sala, de como eu respondi quando errei, de como eu tratei as pessoas que tinham menos poder do que eu naquele momento.

Isso é o que passa. Não a fala, o gesto.

E é exatamente o que artistas como Malheiros carregam sem escolher, porque a câmera registra o gesto. A criança que assiste a uma série com um protagonista negro complexo, capaz de errar e de aprender, está recebendo uma informação que nenhuma conversa de mesa de jantar consegue transmitir com a mesma precisão: esse tipo de pessoa também existe nesse tipo de história.

Séries como Sintonia, Irmandade e Manhãs de Setembro fizeram isso nos últimos anos. Não porque as histórias eram perfeitas. Porque eram reais o suficiente para criar reconhecimento.

Reconhecimento é o primeiro passo do pertencimento. E pertencimento é o que um pai tenta construir no filho antes de qualquer outra coisa.

O que a gente passa quando não está olhando

Existe uma diferença entre ensinar valores e encarnar valores. Todo pai faz a primeira coisa. Poucos sustentam a segunda com consistência.

Encarnar é diferente de pregar. É aparecer quando é mais fácil não aparecer. É nomear o racismo quando a sala prefere o silêncio confortável. É pedalar na cidade que foi construída para o carro. É aceitar um papel secundário por uma década e voltar como protagonista sem fingir que os anos intermediários não existiram.

Malheiros fez isso. Não como ato heroico, mas como continuidade. E continuidade é o que uma criança mais precisa ver num adulto.

A pergunta que fica, depois de ler sobre ele e pensar nos meus próprios filhos, não é sobre o que eu quero que eles se tornem. É sobre o que eles estão vendo eu ser agora, nesta terça-feira de outubro, quando ninguém está filmando.

Perguntas frequentes

O que a representação negra no audiovisual tem a ver com paternidade?

Uma criança que não se vê em protagonistas aprende de forma silenciosa que protagonismo não é para ela. Pais negros que aparecem, seja na tela ou na vida cotidiana, contradizem essa narrativa com a própria presença.

Como um pai passa valores reais para os filhos, além do que fala?

Filhos herdam gestos, não discursos. O que um pai faz quando ninguém está prestando atenção, como ele reage ao erro, como trata quem tem menos poder, é o que fica na memória dos filhos.

Por que a trajetória de atores como Sérgio Malheiros importa para além do audiovisual?

Quando 55,8% da população brasileira é negra ou parda, mas apenas 13,3% do elenco do cinema é composto por atores negros, cada protagonista que aparece na tela abre uma brecha de reconhecimento para crianças que raramente se veem representadas.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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