Wesley Teixeira cresceu no Morro do Sapo, em Duque de Caxias, filho de dois pastores e neto de uma liderança comunitária. Segundo a Notícia Preta, ele hoje integra a coordenação nacional da Frente Evangélica e promete romper a falsa oposição entre fé cristã e luta popular nas periferias. O que me chama atenção na história dele não é a militância, é a genealogia. Tem algo muito específico acontecendo quando um jovem negro consegue nomear, com clareza, de onde veio o que ele carrega.
A paternidade negra no Brasil vive uma contradição que os números tornam impossível de ignorar. De acordo com o relatório da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, 83% dos pais negros se sentem plenamente capazes de cuidar dos filhos pequenos. Mas 65% desses mesmos pais já foram alvos de discriminação exatamente quando exerciam esse cuidado. Ou seja: a capacidade existe, o desejo existe, e o sistema ainda assim interpõe obstáculos onde deveria haver reconhecimento.
O que se perde quando o nome do pai some do registro
Desde 2016, segundo dados compilados pelo Alma Preta, 1,7 milhão de crianças foram registradas no Brasil sem o nome do pai. Esse número não é neutro. Ele tem cor, tem endereço, tem contexto histórico que começa muito antes do cartório.
Mas há um equívoco perigoso em tratar ausência e presença como se fossem apenas escolhas individuais. A cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil. Alguns desses jovens eram pais. Outros ainda não eram, mas poderiam ter sido. A paternidade negra não acontece num vácuo, ela acontece dentro de uma estrutura que ainda decide quem chega vivo até a maternidade, até o cartório, até a escola do filho.
Quando Wesley fala de romper falsas oposições, ele está descrevendo algo que muitos pais negros vivem sem ter esse vocabulário: a necessidade de existir inteiro num mundo que prefere que você exista em partes.
Ser pai negro no Brasil não é apenas criar um filho. É criar um filho que saiba quem ele é, num país que vai passar a vida inteira tentando convencê-lo do contrário.
Presença como ato político, não como mérito pessoal
Tem uma armadilha nas conversas sobre paternidade presente. A narrativa dominante tende a recompensar o pai que aparece como se ele fosse excepcional, como se presença fosse uma conquista individual contra todas as probabilidades. Mas isso esconde a estrutura.
Segundo o relatório de paternidades do Promundo e do Instituto Papai, 51,18% dos pais brasileiros são pardos e 12,46% são pretos. A maior parte dos pais neste país é negra. A narrativa de ausência como característica da paternidade negra diz menos sobre esses homens e mais sobre as forças que historicamente os afastaram dos filhos: encarceramento em massa, subemprego, violência letal, famílias desestruturadas por séculos de política deliberada.
Quando um pai negro aparece, e aparece de forma ativa, isso não é heroísmo. É recusa. Recusa de repetir um apagamento que não começou com ele.
O Jairo e a Kátia, pais de Wesley, construíram uma igreja numa periferia. Mais do que isso: construíram uma referência de presença dentro de casa e dentro da comunidade ao mesmo tempo. Wesley cresceu vendo que as duas coisas não se cancelam. Esse tipo de testemunho não se aprende em palestra. Se aprece vivendo do lado de alguém que escolheu ficar.
O que a paternidade ensina que nenhum cargo ensina
Cuidar de um filho exige uma forma de paciência que não tem paralelo. Não é a paciência de esperar uma reunião terminar, nem de aguardar um projeto ser aprovado. É a paciência de repetir a mesma coisa com a mesma presença, sabendo que o resultado vai aparecer anos depois, talvez numa conversa que você nem vai testemunhar.
Liderança de verdade funciona assim também. Você planta sem garantia de colheita imediata. A diferença é que com os filhos o vínculo não é contratual, e isso muda tudo. Não tem desligamento, não tem recolocação. Tem continuidade, e a continuidade exige que você seja consistente mesmo quando está cansado.
O que Wesley carrega de Duque de Caxias até a coordenação nacional de um movimento não é só uma trajetória. É uma linguagem transmitida por presença: a de que é possível ser ao mesmo tempo filho, herdeiro de fé, ativista e ainda assim não se fragmentar.
Essa inteireza começa em casa. Começa no pai que ficou.
Perguntas frequentes
Por que a paternidade negra no Brasil é tratada como ausência, se a maioria dos pais brasileiros é negra?
Porque o discurso sobre ausência paterna frequentemente ignora as causas estruturais, como violência letal, encarceramento e subemprego, que historicamente afastam homens negros dos filhos. Segundo o relatório do Promundo, 51,18% dos pais brasileiros são pardos e 12,46% são pretos, ou seja, a maioria dos pais no país é negra.
O que os dados dizem sobre o desejo dos pais negros de cuidar dos filhos?
O Primeiro Relatório sobre Paternidades Negras no Brasil, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, mostra que 83% dos pais negros se sentem plenamente capazes de cuidar dos filhos pequenos, embora 65% já tenham sofrido discriminação exatamente ao exercer esse cuidado.
Como a paternidade presente se conecta com a transmissão de identidade para filhos negros?
Quando um pai negro permanece presente e ativo na criação dos filhos, ele transmite mais do que afeto: transmite uma narrativa de pertencimento e identidade que o mundo externo frequentemente tenta apagar. Essa presença é, ao mesmo tempo, ato afetivo e ato político.