Paternidade

Clementino Junior Filmou a Mãe. E Disse Mais Sobre Paternidade Do Que Qualquer Discurso de Pai

Ilustração editorial: Clementino Junior Filmou a Mãe. E Disse Mais Sobre Paternidade Do Que Qualquer Discurso de Pai
Ouça este ensaio · 7 min · A Interseção
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No Festival do Rio de 2026, entre os dias 7 e 9 de outubro, estreou um documentário que poderia ser lido como um gesto cinematográfico simples: o cineasta Clementino Junior dirigiu Amor e Fé: Chica Xavier, um filme sobre a trajetória da própria mãe, a atriz Chica Xavier, incluindo sua atuação na Fundação Palmares. Mas quando você para para pensar no movimento que esse ato representa, a leitura muda. Um filho que para, olha para a mulher que o criou, e diz: "eu vou contar a sua história para o mundo." Isso não é só cinema. É herança em movimento.

A paternidade e a filiação falam a mesma língua: a da transmissão. O que um pai passa para um filho não é só nome, nem só sangue, nem sequer valores declarados em voz alta. É uma postura diante da vida. E às vezes, o gesto mais claro de que algo foi transmitido com êxito não vem do pai, mas do filho que age no mundo com o que recebeu.

A herança que não tem certidão

Existe uma versão de paternidade que muita gente ainda romantiza: o pai como provedor de recursos, o pai que aparece no aniversário, o pai que paga a escola. Esses gestos importam, mas não formam identidade sozinhos.

O que forma identidade é o que acontece nas beiradas. A forma como um pai fala sobre o próprio trabalho na mesa do jantar. O que ele escolhe preservar da história da família. Quem ele cita quando quer dar um exemplo de coragem. Chica Xavier passou décadas construindo uma carreira no audiovisual brasileiro, num tempo em que mulheres negras ocupavam posições ainda mais estreitas do que hoje. O que Clementino Junior herdou não foi só o sobrenome: foi um mapa de como se mover num espaço que não foi feito para você.

A câmera que ele aponta para a mãe é esse mapa tomando forma visível.

Paternidade não é só o que você ensina em voz alta. É o que seu filho aprende te observando quando você acha que ninguém está prestando atenção.

Penso nisso com frequência quando estou com meu filho. Não nas conversas grandes, aquelas que a gente planeja. Mas nos momentos pequenos: quando ele me vê ler, quando ele percebe que eu peço desculpa quando erro, quando ele nota que eu trato o entregador e o CEO com o mesmo tom de voz. Esses são os currículos reais da paternidade.

Presença não é quantidade de horas, é qualidade de atenção

O audiovisual brasileiro tem uma relação particular com a memória familiar. Desde Reminiscências, documentário produzido entre 1909 e 1926 por Aristides Junqueira e considerado o mais antigo preservado no Brasil, até os filmes contemporâneos, o cinema nacional sempre encontrou na intimidade doméstica um território fértil. Nos últimos 20 anos, houve um aumento expressivo no uso de imagens amadoras e familiares em documentários, segundo pesquisadores da área. As pessoas perceberam que o arquivo mais honesto sobre uma vida não está nos arquivos públicos, está nas gavetas de casa.

Clementino Junior fez isso de forma profissional e pública. Mas qualquer pai faz uma versão disso toda vez que decide sentar ao lado do filho em vez de pegar o celular. Toda vez que escolhe ouvir antes de responder. Toda vez que aparece, mesmo cansado.

Presença não é presença física. É a qualidade de atenção que você traz quando está no mesmo espaço que seu filho. Um pai que está em casa mas inacessível ensina algo. Um pai que está em viagem mas liga para perguntar como foi a prova ensina outra coisa. A criança registra os dois.

O dado mais honesto sobre isso não vem de estudo acadêmico. Vem de perguntar a um adulto o que ele se lembra do pai. Raramente a resposta é um presente. Quase sempre é uma cena: o pai que foi ao jogo quando chovia, o pai que chorou num filme, o pai que ficou em silêncio quando deveria ter gritado.

O que os filhos fazem com o que recebem

O cinema tem uma brutalidade particular como espelho social. Em 2019, o filme Minha Mãe é Uma Peça 3 ocupou 51,7% de todas as salas de cinema do Brasil, segundo dados da Ancine, exibido em 1.812 telas simultaneamente. O título não é coincidência: a comédia existe porque a relação mãe-filho tem uma força narrativa que o público reconhece como verdade imediata. Mas enquanto esse tipo de relação lotava salas, histórias como a de Chica Xavier esperavam num corredor mais estreito para serem contadas.

O que Clementino Junior fez foi recusar esse corredor. Ele não esperou o mercado descobrir a mãe. Ele pegou a câmera.

É isso que uma paternidade bem exercida tenta produzir: filhos que não esperam permissão para valorizar o que herdaram. Filhos que transformam a história da família em ação no mundo. Filhos que entendem que preservar quem veio antes deles não é nostalgia, é estratégia.

No cartaz do documentário, Chica Xavier olha diretamente para a câmera. Do outro lado da câmera, está o filho. Os dois se olham, separados por décadas e reunidos por um filme. Não sei se existe imagem mais precisa do que a paternidade, quando funciona, parece.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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