Carreira após os 40

Valéria Conceição disse "carreguem suas origens com muito orgulho". Eu quero falar sobre o que custa chegar até essa frase.

Ilustração editorial: Valéria Conceição disse "carreguem suas origens com muito orgulho". Eu quero falar sobre o que custa chegar até essa frase.

Valéria Conceição, Head de Perfumaria, Presentes e Cuidados Pessoais da Avon no Brasil, deu uma entrevista ao Mundo Negro ontem, 30 de outubro, sobre mentoria e liderança negra. Em determinado momento, ela fez uma recomendação que parece simples: "Carreguem suas origens com muito orgulho." Mais de 20 anos de trajetória no mercado da beleza cabem nessa frase. E eu fiquei pensando quanto tempo uma pessoa negra precisa trabalhar para chegar ao ponto em que dizer isso não soa como ingenuidade.

Porque o dado que acompanha essa trajetória não deixa esquecer. Segundo o Instituto Ethos, em 2024, mulheres negras ocupavam 3,4% dos cargos executivos nas maiores empresas brasileiras. Nos conselhos de administração, esse número caía para 1,8%. Estamos falando de um grupo que representa cerca de 29% da população do país. A aritmética é simples. A injustiça que ela descreve, menos.

O que uma carreira longa ensina que um cargo não consegue

Existe uma diferença entre acumular anos de experiência e aprender com eles. A maioria das pessoas acumula. Poucas aprendem a usar o que acumularam como argumento, como posicionamento, como autoridade que não pede licença.

Valéria não falou sobre superar origens. Falou sobre carregá-las. Esse deslocamento semântico é enorme. Superar sugere deixar para trás. Carregar sugere que o que você viveu é parte do que te qualifica, não um obstáculo que você precisou vencer para sentar à mesa.

Isso é algo que os 40 anos ensinam, quando você para de tentar provar que chegou e começa a entender por que chegou. A experiência acumulada deixa de ser currículo e vira perspectiva. E perspectiva, diferentemente de habilidades técnicas, não se forma em curso nenhum.

Quando você para de pedir que o mercado reconheça o que você vale e começa a reconhecer isso por conta própria, a relação com a carreira muda de natureza. Não é sobre confiança. É sobre clareza.

A mentoria entra aqui como instrumento, não como cerimônia. Valéria fala sobre a importância das referências, das pessoas que ensinam. E o dado mais cruel sobre liderança negra é justamente esse: como uma jovem executiva negra busca referência em alguém que ainda não existe em número suficiente nos andares de cima?

Presença é uma forma de argumento

O mercado da beleza no Brasil, curiosamente, apresenta mais diversidade do que outros setores. A expansão de produtos voltados para cabelos crespos e cacheados acompanhou a força econômica do público negro, que o mercado finalmente decidiu parar de ignorar. Mas presença em prateleiras de shampoo não se traduz automaticamente em presença nas cadeiras de decisão.

O DIEESE, na PNAD Contínua de 2025, estimou em 23,9 milhões o número de mulheres negras ocupadas no mercado de trabalho brasileiro. O maior grupo feminino da força de trabalho do país. E ainda assim, 42% delas estão na informalidade, sem contrato, sem proteção, sem o tipo de visibilidade que leva a uma promoção.

Carregar as origens com orgulho é mais fácil quando o sistema não trabalha contra você a cada passo. Valéria chegou ao topo de uma área competitiva em mais de duas décadas de trabalho. Essa frase que ela disse na entrevista de ontem custou cada um desses anos.

O que me interessa na carreira depois dos 40 não é o cargo. É a legibilidade. A capacidade de ler o ambiente sem perder a si mesmo dentro dele. De saber quando o que o mercado oferece vale aceitar e quando o preço é alto demais. Isso não se aprende em treinamento de liderança. Se aprende errando, escolhendo, perdendo e ficando de pé.

A mentoria que Valéria descreve não é sobre transmitir técnica. É sobre transmitir a cartografia de um território que quem está chegando ainda não conhece. É dizer: essa sala tem saída por aqui, esse corredor é armadilha, essa pessoa te respeita mesmo quando finge não te ver.

Quando ela diz para carregar as origens com orgulho, está dizendo também que a versão de você que sobreviveu até aqui tem informação que o mercado não sabe comprar. E que essa informação não fica mais barata com o tempo. Pelo contrário.

Valéria tem mais de 20 anos de mercado. 3,4% de presença executiva. Uma frase que deveria ser óbvia e ainda soa como resistência. Talvez a pergunta não seja como chegar ao topo. Seja o que acontece com quem chega e decide falar de onde veio sem pedir desculpa.

Perguntas frequentes

O que Valéria Conceição disse sobre mentoria e liderança negra?

Em entrevista ao Mundo Negro em outubro de 2026, a executiva da Avon destacou a importância das referências, da autenticidade e da presença de mulheres negras nas mesas de decisão, concluindo com a frase: 'Carreguem suas origens com muito orgulho'.

Qual é a representação de mulheres negras nos cargos executivos das grandes empresas brasileiras?

Segundo o Instituto Ethos (2024), mulheres negras ocupam apenas 3,4% dos cargos executivos nas maiores empresas do Brasil e 1,8% dos assentos em conselhos de administração, apesar de representarem cerca de 29% da população.

O que a experiência acumulada depois dos 40 anos muda numa carreira?

Com o tempo, a experiência deixa de funcionar como currículo e passa a operar como perspectiva, dando clareza para saber quando aceitar o que o mercado oferece e quando o preço dessa aceitação é alto demais.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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