Jayane Borges tem 32 anos, é engenheira química, saiu do interior do Piauí e hoje ocupa uma cadeira de gerente sênior de Estratégia Corporativa na Natura. Em entrevista ao Mundo Negro, ela disse algo que ficou comigo: "Ao longo da minha carreira, aprendi a sonhar." Não "aprendi a executar", não "aprendi a me posicionar". Sonhar. Como se antes disso o sonho fosse um luxo que ela não podia carregar.
Essa frase abre uma conversa que vai muito além da trajetória individual dela, e é essa conversa que me interessa. Porque quando uma mulher negra chega à liderança no Brasil e o marco que ela escolhe nomear é aprender a sonhar, ela está dizendo algo preciso sobre o que o sistema cobra de quem percorre esse caminho. Não o esforço, não a competência. O direito de imaginar um destino antes de correr em direção a ele.
A matemática que ninguém quer ver
Segundo dados do repositório da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), apenas 14,7% das mulheres negras no Brasil tinham ensino superior completo em 2022. No mesmo ano, elas representavam 30% das pessoas em cargos gerenciais no país. Esse número soa como avanço até você ler o próximo: apenas 3% da população negra ocupa cargos de alta liderança, de acordo com dados amplamente divulgados e sistematizados por iniciativas como o Movimento Pessoas à Frente.
Trinta por cento na gestão intermediária. Três por cento no topo. A escada existe, mas ela para num andar.
E quem chega lá chega, em geral, sozinha. Uma pesquisa sistematizada pelo GIFE aponta que 57% das executivas negras são a única liderança negra feminina no ambiente em que atuam. Não a única na sala de reunião daquele dia. A única na empresa inteira.
Chegar num lugar onde você é a única representante de tudo que você é não é vitória sem custo. É vitória com peso.
Isso não invalida a conquista de Jayane, nem de nenhuma outra mulher que percorreu esse caminho. Mas muda radicalmente o que significa "construir uma carreira de longo prazo" quando você carrega esse contexto.
O que a experiência acumulada realmente ensina
Existe uma narrativa popular sobre carreira depois dos 40 que trata a experiência como uma espécie de capital automático, algo que você acumula só por ter ficado vivo e empregado por tempo suficiente. Não funciona assim.
O que os anos realmente ensinam, quando você para para examinar com honestidade, é a diferença entre o que você tolerou porque precisava e o que você aceitou porque acreditava. Essa distinção parece pequena quando você tem 28 anos e a conta a pagar. Ela vira central quando você tem 40 e percebe que algumas das escolhas que chamou de "estratégia" eram, na verdade, sobrevivência.
Para quem sempre teve que negociar o próprio pertencimento antes de negociar salário, projeto ou promoção, essa clareza chega mais cedo e custa mais caro. Jayane aprendeu a sonhar no processo, não antes dele. Esse detalhe importa.
A experiência acumulada também ensina a reconhecer o que não está no organograma. Quem decide de fato. Quem protege quem. Quais portas têm dobradiças e quais são pintadas na parede. Esse mapa não vem em nenhuma formação executiva. Ele é construído por tentativa, por erro, por observação de quem já errou antes de você, e por ter alguém disposto a compartilhar o que aprendeu.
Mentoria, nesse sentido, não é um benefício corporativo. É uma forma de redistribuir o capital invisível que os ambientes homogêneos circulam entre si há décadas. Quando 59% das mulheres negras aspiram a posições executivas de alto nível, segundo levantamento da Fundação Dom Cabral, e o teto permanece onde está, o gargalo não é ambição. Nunca foi.
Definir sucesso antes que o sistema defina por você
Tem um momento na carreira, geralmente depois dos 35 ou 40, em que você começa a perceber que as métricas que usou até ali para medir o próprio progresso foram definidas por outras pessoas. Título. Nível hierárquico. Tamanho da equipe. Visibilidade pública.
Essas métricas não são neutras. Elas foram construídas por ambientes que, durante muito tempo, imaginaram apenas um tipo de pessoa chegando ao topo. Quando você não se encaixa nesse perfil de origem, tem duas opções: correr para atingir as marcas deles, ou parar e perguntar se essas marcas fazem sentido para a vida que você quer ter.
Essa pergunta não é luxo. É estratégia. Carreiras longas e sustentáveis raramente são construídas por quem deu tudo de si para um sistema que nunca foi feito para eles. São construídas por quem, em algum momento, parou de pedir permissão para redefinir os termos.
Jayane disse que aprendeu a sonhar. Eu fico pensando no que ela vai ensinar a quem vier depois dela. Não o currículo, não o cargo. A permissão de começar pelo sonho.
Perguntas frequentes
Por que é tão difícil para mulheres negras avançar além de cargos gerenciais no Brasil?
Os dados mostram que, apesar de representarem 30% das pessoas em cargos gerenciais, apenas 3% da população negra ocupa posições de alta liderança. Isso aponta para barreiras estruturais, não para falta de competência ou ambição.
O que muda na forma de encarar a carreira depois dos 40 anos?
Com a experiência acumulada, fica mais fácil distinguir o que você tolerou por necessidade do que realmente acredita, e isso abre espaço para redefinir sucesso nos seus próprios termos, não nos termos do sistema.
Mentoria é importante para crescimento de carreira em contextos de sub-representação?
Sim. Em ambientes onde o capital social circula entre grupos homogêneos, a mentoria funciona como uma forma de redistribuir informações e acesso que normalmente não chegam a quem está fora das redes de poder estabelecidas.