Empreendedorismo

Porto Alegre teve uma feira. O que ela diz sobre empreendedorismo negro vai além dos estandes.

Ilustração editorial: Porto Alegre teve uma feira. O que ela diz sobre empreendedorismo negro vai além dos estandes.
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No último sábado, 18 de outubro, o BatukBaile tomou Porto Alegre. Moda, gastronomia, beleza, acessórios, música. Uma feira que conecta empreendedores negros e oferece espaço gratuito para que essas marcas existam em público, conforme noticiou a Revista Raça. Um evento com esse perfil numa cidade do sul do país diz algo. A pergunta é sobre o quê, exatamente.

Não é difícil encontrar feiras para empreendedores negros no Brasil. O que é difícil é entender por que elas continuam sendo necessárias como ponto de entrada, como exceção, como ato de resistência, em vez de ponto de partida para algo maior. Esse é o nó que vale olhar de perto.

Os números têm duas faces

Segundo levantamento do Sebrae e dados reunidos pelo portal Alma Preta, mais de 15,8 milhões de negros são donos de negócios no Brasil, representando 52,3% do total de empreendedores do país. Mais da metade. A maioria.

O mesmo Sebrae aponta que esse universo cresceu 28% entre 2012 e 2023. Crescimento real, não projeção.

Esses números parecem promissores até você ler o próximo dado. Empreendedores negros faturam, em média, 32% menos do que empreendedores brancos, conforme o Sebrae RJ. E apenas 24,2% dos negócios negros são formalizados, segundo o Sebrae PR. Ou seja: a maioria das pessoas que constroem algo no Brasil é negra, mas a estrutura que permitiria que esses negócios crescessem, acumulassem e atravessassem gerações ainda não chegou para a maioria delas.

Ser maioria em número e minoria em condição não é uma contradição acidental. É o resultado de décadas de acesso desigual a crédito, formação, redes e visibilidade.

46% dos empreendedores negros começaram seus negócios por necessidade, segundo levantamento do blog do Nubank. Não por oportunidade identificada. Não por capital acumulado. Por necessidade. Isso importa quando se pensa em sustentabilidade, em margem, em capacidade de investimento futuro.

O que a feira revela que o dado não mostra

Uma feira como o BatukBaile faz algo específico: cria um ambiente onde o cliente esperado é alguém que reconhece o produto como seu. Onde a estética não precisa se explicar. Onde o preço praticado não precisa competir com a invisibilidade de quem vende.

Isso não é pouca coisa. Para um negócio que opera sem formalização, sem acesso fácil a crédito e sem as redes informais que conectam empreendedores brancos a investidores, distribuidores e parceiros, um espaço de visibilidade é capital simbólico com efeito prático.

O problema não é a feira. O problema é quando a feira vira o teto em vez de ser um degrau.

O empreendedor negro no Brasil frequentemente constrói sua rede de fora para dentro: cria a comunidade, ganha visibilidade na comunidade, e só então, se tiver sorte e persistência, consegue acessar estruturas que já estavam disponíveis para outros desde o começo. O percurso é mais longo. O custo de energia é maior. A margem para erro é menor.

Não estou falando de talento. Talento não está em falta. O que está em falta é a eliminação de obstáculos que nunca deveriam ter existido.

Construir com identidade não é estratégia de nicho

Existe uma leitura redutora sobre negócios com identidade cultural: que eles servem a um público específico, que o mercado é menor, que a escala é limitada. Essa leitura ignora o que algumas das marcas mais valiosas do mundo fizeram: construíram a partir de uma identidade particular e chegaram ao universal por serem genuínas, não por diluírem quem eram.

Marcas negras brasileiras que constroem a partir da cultura afro-brasileira não estão se fechando num nicho. Estão sendo específicas. E especificidade bem executada tem mais força do que generalidade vaga.

O BatukBaile entendeu isso. Conectar música, cultura e negócio num mesmo espaço não é folclore. É posicionamento. É dizer que a estética e a estratégia não são coisas separadas.

O que ainda precisa mudar está fora dos estandes: está no crédito que não chega, na burocracia que afasta a formalização, nas redes fechadas que decidem quem recebe investimento. Esses são os próximos degraus.

A feira fechou. As marcas voltaram para seus ateliês, cozinhas e estúdios. A pergunta que fica é simples e desconfortável: o que o ecossistema ao redor delas fez para que a próxima edição precise ser menos necessária do que esta?

Perguntas frequentes

Por que empreendedores negros são maioria no Brasil, mas ganham menos do que empreendedores brancos?

Empreendedores negros representam 52,3% dos donos de negócio no Brasil, mas faturam em média 32% menos do que empreendedores brancos, segundo o Sebrae RJ. Isso reflete desigualdades históricas no acesso a crédito, redes de negócios e visibilidade de mercado, não diferença de capacidade ou esforço.

O que eventos como o BatukBaile representam para o empreendedorismo negro?

Feiras voltadas a empreendedores negros criam espaço de visibilidade e conexão com públicos que reconhecem e valorizam esses produtos, o que tem efeito prático para negócios que ainda enfrentam barreiras de acesso a crédito e redes comerciais convencionais.

Por que a formalização dos negócios negros é tão baixa no Brasil?

Apenas 24,2% dos negócios de empreendedores negros são formalizados, de acordo com o Sebrae PR. A combinação de burocracia elevada, baixo acesso a orientação financeira e falta de crédito acessível faz com que a informalidade muitas vezes seja a única saída viável no início.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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