Empreendedorismo

52% dos donos de negócio no Brasil são negros. Por que a riqueza não fica com eles?

Ouça este ensaio · 8 min · A Interseção
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Uma pesquisa do Instituto RME divulgada em agosto de 2026 confirmou o que muita gente já sentia, mas poucos tinham medido com precisão: 52,3% das empreendedoras brasileiras são pretas ou pardas. Na prática, a mulher negra é o perfil dominante do empreendedorismo feminino no país. E mesmo assim, 42,8% dessas empreendedoras operam na informalidade, segundo o mesmo levantamento, publicado pelo Mundo Negro.

O dado não é uma curiosidade estatística. Ele descreve um sistema. Um sistema que reconhece o trabalho negro como insumo, mas recusa esse mesmo trabalho como patrimônio. A questão não é se a mulher negra empreende. Ela claramente empreende, em larga escala, com criatividade e com frequência sem nenhuma rede de apoio. A questão é o que o país faz, ou deixa de fazer, com esse esforço.

A informalidade não é uma escolha, é uma resposta a um ambiente hostil

Quando 42,8% das empreendedoras negras estão na informalidade, enquanto esse número cai para 24,5% entre mulheres não negras, segundo dados do Instituto RME, a diferença não se explica por falta de ambição ou de capacidade. A explicação mora em outro lugar: acesso a crédito, custo de formalização, ausência de mentores com trajetória semelhante, e um sistema bancário que historicamente trata o corpo negro como risco.

Formalizar um negócio no Brasil já é difícil para qualquer pessoa. Para uma mulher negra que começou vendendo por necessidade, sem capital de giro e sem fiador aceito pelos bancos tradicionais, a informalidade muitas vezes é a única porta que estava aberta. Chamá-la de "escolha" seria ignorar tudo que a precedeu.

O setor de comércio concentra 80,6% das empreendedoras negras, segundo a Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios. São brechós, quitandas, salões, feiras. Negócios que sustentam famílias, bairros inteiros, economias locais. Negócios que raramente aparecem em matéria de inovação, raramente recebem investimento de risco, raramente são convidados para os palcos das conferências de empreendedorismo.

O empreendedorismo negro no Brasil existe apesar do ambiente, não por causa dele. Isso muda o que precisamos construir, e para quem.

O que a identidade cultural tem a ver com estratégia de negócio

Tem algo que me chama atenção quando observo negócios construídos por pessoas negras a partir da própria cultura: eles frequentemente resolvem problemas que o mercado convencional nem enxerga como problemas. O salão especializado em cabelos crespos não é só um salão. É uma resposta a décadas de mercado que tratou esse cabelo como desvio a corrigir.

A identidade não é só posicionamento de marca. É fonte de insight. Quem viveu determinada experiência tem acesso a uma leitura do mundo que nenhuma pesquisa de mercado consegue comprar. Quando essa leitura encontra estrutura, método e estratégia, o negócio para de competir no mesmo terreno de sempre. Ele cria terreno próprio.

O problema é que essa combinação, identidade mais estratégia, raramente recebe o suporte que precisaria nos estágios iniciais. E quando o suporte aparece, quase sempre vem com condições que apagam o que tornava aquele negócio singular.

O que muda quando o dinheiro fica na comunidade

Existe um conceito que economistas chamam de "multiplicador local": cada real gasto dentro de uma comunidade tende a circular mais vezes antes de sair dela, gerando mais renda para mais pessoas. Negócios negros formalizados, com acesso a crédito e mercado, têm potencial de ativar esse multiplicador em regiões que o investimento formal nunca alcança.

A empreendedora negra que formaliza seu negócio não está apenas protegendo a si mesma. Ela cria emprego com carteira assinada para vizinhas, paga impostos que financiam escola e posto de saúde, e demonstra para a filha que morou na mesma rua que aquele caminho existe. O impacto não cabe num CNPJ.

Só que o dado persiste: 59% menos renda em comparação com homens brancos empreendedores, segundo levantamento citado pelo portal Guetto. Cinquenta e nove por cento. Não é uma lacuna. É um abismo construído ao longo de gerações, por políticas de crédito, por segregação urbana, por currículos escolares que nunca viram história negra como história de construção.

A pesquisa do Instituto RME vai sair das timelines e ser esquecida em algumas semanas. Mas a mulher que ela descreve vai abrir a barraca amanhã de manhã, negociar com fornecedor sem ter conta jurídica, fechar o caixa no final do dia e recomeçar na segunda. O que me pergunto é: o que nós, que lemos esse dado e nos importamos com ele, vamos fazer diferente antes da próxima pesquisa sair?

Perguntas frequentes

Por que tantas empreendedoras negras no Brasil ainda operam na informalidade?

Segundo a Pesquisa Nacional do Instituto RME 2026, 42,8% das empreendedoras negras atuam na informalidade, taxa 75% maior do que entre mulheres não negras. As barreiras incluem dificuldade de acesso a crédito, custo de formalização e ausência de suporte institucional direcionado a esse público.

Mulheres negras ganham menos do que outros empreendedores no Brasil?

Sim. Dados citados pelo portal Guetto apontam que empreendedoras negras ganham 59% menos do que homens brancos empreendedores, uma disparidade que reflete desigualdades estruturais de raça e gênero no acesso a mercados e financiamento.

Em quais setores as empreendedoras negras mais atuam?

De acordo com a Revista Pequenas Empresas e Grandes Negócios, 80,6% das empreendedoras negras se concentram no setor de comércio, como brechós, feiras e salões, segmentos de baixo valor agregado que raramente atraem investimento ou aparecem nos debates sobre inovação.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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