Carreira após os 40

Depois dos 40, o jogo muda de nome

Ouça este ensaio · 6 min · A Interseção
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No começo de agosto de 2026, Denis Tassitano deixou mais de uma década na SAP para assumir a liderança da Swile Brasil. Não foi uma promoção dentro da mesma casa. Foi uma aposta. Tassitano trocou a vice-presidência da SAP Concur para a América Latina e o Caribe pelo comando de uma operação que, segundo a Exame, representa 25% do volume de negócios global da Swile, uma empresa francesa que já acumula 1 milhão de usuários no Brasil, conforme a Revista Raça Brasil. Ele chegou lá com experiência de sobra. Chegou com o acúmulo de quem construiu algo ao longo do tempo.

O movimento dele me fez pensar não na nomeação em si, mas no que ela representa como padrão. Depois dos 40, a carreira exige outro tipo de coragem. Não a coragem de provar que você é capaz. A coragem de saber o que você quer, mesmo que isso signifique recomeçar em outro lugar.

O que a experiência realmente compra

Existe uma narrativa no mercado de que experiência é sinônimo de estagnação. Que quem tem 40 anos já está ficando para trás na corrida tecnológica, na corrida criativa, na corrida do que quer que seja que esteja na moda naquele trimestre. Essa narrativa serve a quem contrata gente mais nova por menos dinheiro. Ela não serve a quem está tentando construir algo que dure.

O que anos de trabalho real ensinam não aparece em currículo. É a capacidade de reconhecer quando uma reunião está perdendo o rumo antes de todo mundo perceber. É saber que o problema apresentado raramente é o problema verdadeiro. É ter vivido ciclos suficientes para não entrar em pânico na primeira crise nem euforia no primeiro sinal de crescimento.

Isso tem nome: julgamento. E julgamento não se treina em bootcamp de fim de semana.

Depois dos 40, você para de tentar impressionar e começa a tentar construir. Essa distinção muda tudo, do tipo de trabalho que você aceita ao tipo de liderança que você exerce.

A mudança de Tassitano também aponta para algo que pouca gente fala com honestidade: às vezes, o próximo passo na carreira não está dentro da empresa onde você está. Está em outro lugar, com outro desafio, pedindo que você use o que aprendeu de uma forma completamente diferente. Reconhecer esse momento exige autoconhecimento. E autoconhecimento, em geral, leva tempo para chegar.

Ambição depois dos 40 tem outra forma

A ambição dos 25 anos tem urgência. Quer chegar rápido, quer o título, quer o reconhecimento visível. Não tem nada de errado nisso. É a fase em que você ainda está descobrindo o que consegue fazer.

A ambição depois dos 40 é mais silenciosa e mais precisa. Você já sabe o que consegue. A pergunta que fica é outra: vale a pena? Esse trabalho faz sentido para mim agora? Estou contribuindo com algo que eu de fato respeito?

Não estou romantizando equilíbrio. Equilíbrio perfeito não existe e essa conversa ficou cansativa. O que estou dizendo é que, com o tempo, a tolerância para desperdício cai. Você fica menos disposto a passar horas em projetos que não levam a lugar nenhum, em culturas que drenam, em ambições que são dos outros mas foram emprestadas para você carregar.

Isso não é preguiça. É calibragem.

E calibragem é exatamente o que faz alguém chegar aos 40 com capacidade de liderar uma operação complexa sem precisar gritar para ser ouvido.

Mentoria não é legado, é conversa

Uma coisa que a experiência torna possível, e que pouquíssimas pessoas exploram bem, é a mentoria. Não o tipo formal com encontros mensais e formulários de feedback. A mentoria que acontece quando alguém mais jovem traz um problema real e você consegue dizer, com convicção, "já vi isso antes, e aqui está o que ninguém te contou."

Esse tipo de troca tem valor em duas direções. Quem recebe ganha perspectiva que não está em nenhum curso. Quem dá é obrigado a articular o que aprendeu de forma clara, o que frequentemente revela o quanto você ainda não sabe sobre o que você sabe.

Mentoria também é uma forma de revisitar suas próprias escolhas sem nostalgia. Você não está ensinando alguém a repetir o seu caminho. Está ajudando uma pessoa a enxergar o terreno com mais clareza para fazer o caminho dela.

Tassitano vai liderar uma operação de 1 milhão de usuários num momento em que a Swile quer expandir de benefícios corporativos para uma carteira digital completa. É uma aposta num mercado em movimento, feita por alguém que chegou com história suficiente para não precisar improvisar o básico. O que ele vai fazer com isso, só o tempo responde. Mas o ponto de partida, a combinação de experiência acumulada com disposição de recomeçar num terreno novo, já diz alguma coisa sobre o que os 40 podem ser, quando você para de encará-los como uma chegada e começa a tratá-los como uma virada de chave.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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