Kongo, 1706
Ela disse que Cristo era negro. Foi queimada por isso.
Antes de qualquer navio negreiro justificar teologia, o Reino do Kongo já era cristão por decisão própria. A conversão vem de 1491, com o rei Nzinga a Nkuwu batizado como João I. Não foi missionário impondo: como mostra o trabalho de John Thornton, a igreja kongolesa cresceu sob direção das autoridades kongolesas, não dos missionários. Ajudou o fato de já existir ali a cruz cosmogramática do dikenga, dividindo o mundo dos vivos do mundo dos ancestrais muito antes de qualquer europeu aparecer com a dele.
Em 1704, Dona Beatriz Kimpa Vita, com cerca de vinte anos, declarou-se possuída por Santo Antônio de Pádua. Pregou que Jesus e Maria eram kongoleses, negros. Acusou os missionários capuchinhos de não sustentarem santos negros. Tentou encerrar as guerras civis que dilaceravam o reino.
Em 2 de julho de 1706, foi queimada viva por heresia. O que sabemos dela foi reconstruído, em larga medida, a partir de quatro relatos dos próprios capuchinhos italianos. Ou seja: a versão que sobrou é a de quem acendeu a fogueira.