Identidade Negra

Quando o BRICS Menciona Racismo num Parágrafo, e Nós Vivemos Dentro Dele

Ilustração editorial: Quando o BRICS Menciona Racismo num Parágrafo, e Nós Vivemos Dentro Dele
Ouça este ensaio · 8 min · A Interseção
Ouça no Spotify ↗

Em setembro de 2026, líderes de dezessete países assinaram a declaração final da 18ª Cúpula do BRICS, em Nova Délhi. O parágrafo 12 do documento reafirma a necessidade de intensificar o combate ao racismo, à discriminação racial e às intolerâncias correlatas. Um parágrafo. Num documento de cúpula. Sobre o que estrutura a vida de metade da população do Brasil.

Não estou dizendo que o parágrafo não importa. Importa. O que me chama atenção é o contraste de escala: o mundo leva décadas para escrever uma frase sobre racismo num tratado multilateral, enquanto um homem negro leva segundos para sentir o peso disso num elevador, numa entrevista, numa reunião de conselho. A declaração formaliza o que o corpo já sabia.

Os números que nenhum parágrafo ainda conseguiu mover

Dados do IBGE, compilados pelo Observatório da Educação do Instituto Unibanco, mostram que 40% da população preta ou parda era considerada pobre em 2022. Entre brancos, esse percentual era de 21%. Não é uma diferença de esforço. É uma diferença de sistema.

A CNN Brasil reportou, a partir de pesquisa do IBGE, que a renda de trabalho dos brancos era 87,6% maior do que a dos negros no mesmo ano. Não é um gap de talento. É um gap de acesso, de rede, de quem abre a porta antes mesmo da entrevista começar.

Só metade das pessoas pretas no Brasil concluiu o ensino básico, segundo o próprio IBGE, como apontou a Fundação Carlos Chagas. E a média de anos de estudo entre negros e brancos ainda tem dois anos de diferença. Dois anos. Uma geração inteira de conhecimento, de vocabulário, de confiança, de mercado.

Identidade negra não é um tema de pauta. É a condição material e simbólica em que milhões de pessoas organizam sua sobrevivência, suas escolhas e, quando o mundo permite, seus sonhos.

Esses números não são fundo de tela para um discurso sobre racismo. São a arquitetura do problema. E nenhuma declaração de cúpula, por mais bem-intencionada que seja, muda arquitetura sem política pública, sem redistribuição, sem o reconhecimento honesto de que o privilégio de uns foi construído sobre o apagamento de outros.

O que se perde quando identidade vira categoria

Existe um movimento que acontece sempre que o tema entra em espaços de poder: a negritude vira categoria. Vira dado demográfico. Vira parágrafo 12. E no processo, perde exatamente o que tem de mais vivo, que é a textura de existir com essa identidade todos os dias.

Ser um homem negro num espaço profissional majoritariamente branco não é uma experiência abstrata. É saber que você vai ter que provar o que o colega branco só precisa afirmar. É calibrar o tom da voz para não soar "agressivo" quando discorda. É chegar cedo numa reunião porque aparecer por último, quando você é o único negro na sala, tem um custo simbólico diferente.

Não estou reclamando. Estou descrevendo. Existe uma diferença.

E essa descrição importa porque identidade negra não é uma carga que a gente carrega apesar de quem a gente é. É parte constitutiva de quem a gente é. A ancestralidade, a estética, a forma de construir comunidade, a memória de quem veio antes e resistiu sem aplausos: tudo isso não é detalhe cultural. É fundação.

Força não é negar a dificuldade, é conhecer sua origem

Cresci entendendo que a excelência negra precisa ser maior para ser vista como igual. Aprendi isso antes de ter palavras para isso. Só mais tarde entendi que essa exigência não é justa, mas que a resposta a ela não é diminuir o passo, é entender de onde vem a força que me faz continuar.

Identidade não é banner. É bússola. Quando você sabe quem é, sabe o que defende, o que não negocia, o que constrói. Isso tem valor estratégico real, além do valor simbólico que o mundo reconhece devagar demais.

O parágrafo 12 do BRICS vai ser citado em relatórios. Vai alimentar discursos. Vai ser monitorado por pesquisadores sérios, como a equipe do Geledés, que trouxe esse debate à superfície. Mas a transformação que importa não começa num documento. Começa quando um jovem negro decide que a narrativa sobre quem ele é não pertence a quem nunca olhou para ele com respeito.

Em Nova Délhi, líderes escreveram um parágrafo sobre racismo. Em algum bairro do Brasil, um menino negro acordou hoje e foi para a escola sabendo que tem dois anos a menos de estudo acumulados pela sua família do que o colega ao lado. Ele não sabe que existe um parágrafo. Mas sabe, com precisão, o que esse parágrafo ainda não mudou.

Perguntas frequentes

O que o BRICS disse sobre racismo na sua declaração de 2026?

A declaração final da 18ª Cúpula do BRICS, realizada em Nova Délhi em setembro de 2026, reafirma no parágrafo 12 a necessidade de intensificar o combate ao racismo, à discriminação racial, à xenofobia e intolerâncias correlatas, conforme reportado pelo Geledés.

Por que a desigualdade racial no Brasil persiste mesmo com leis antirracistas?

Porque o problema é estrutural: em 2022, a renda de trabalho dos brancos era 87,6% maior do que a dos negros (IBGE via CNN Brasil), e apenas 50% das pessoas pretas concluíram o ensino básico (IBGE via Fundação Carlos Chagas). Leis importam, mas não substituem redistribuição de acesso e oportunidade.

Como a identidade negra pode ser uma fonte de força em espaços profissionais predominantemente brancos?

Identidade negra oferece clareza sobre valores, comunidade e propósito, elementos que funcionam como bússola estratégica quando o ambiente exige que você prove o que outros apenas afirmam. Reconhecer a origem dessa força é o primeiro passo para não deixar que o ambiente a apague.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
← Voltar ao blog