Aprendizado

Aprender é um ato político: o que o II Encontro Latino-Americano de Educação Étnico-Racial tem a nos dizer

Entre 25 e 27 de setembro de 2026, o Campus Urca da UNIRIO vai receber educadoras e educadores de toda a América Latina para o II Encontro Latino-Americano de Educação para as Relações Étnico-Raciais. A abertura acontece no Museu da História e da Cultura Afro Brasileira, o MUHCAB. Não é um detalhe simbólico escolher um museu para abrir um encontro sobre educação. É uma declaração.

O que me chama atenção nesse evento não é só o tema étnico-racial em si, apesar de ele ser urgente. É a pergunta que o encontro coloca por baixo de tudo: o que vale aprender, quem decide isso, e quem fica de fora quando essa decisão é tomada sem considerar a maioria da população? Esse é o nervo que o evento toca. E é o mesmo nervo que qualquer pessoa comprometida com aprendizado de verdade precisa encarar.

Currículo é escolha, e toda escolha exclui algo

A gente aprende desde cedo que aprender é neutro. Ciências, matemática, história. Como se o conhecimento fosse uma prateleira objetiva, disponível igualmente para todos. Mas currículo é política. O que entra num livro didático, o que vira disciplina obrigatória, o que fica de fora, são decisões tomadas por pessoas com interesses, com perspectivas, com pontos cegos.

A Lei 10.639, aprovada em 2003, tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas públicas e privadas do Brasil. Mais de vinte anos depois, a implementação ainda é fragmentada, dependente da iniciativa de professoras e professores individuais que carregam esse peso quase sozinhos. O II Encontro existe exatamente para criar rede em torno dessas pessoas, conforme divulgado pelo Notícia Preta e confirmado nas informações do evento na UNIRIO.

Quando educadores se reúnem para compartilhar experiências e propor diálogo, como propõe o encontro, eles estão fazendo algo que a formação tradicional raramente ensina: aprender com o que o sistema preferiu ignorar.

O hábito de aprender o que não te ensinaram

Acredito que o aprendizado mais valioso da vida adulta é justamente esse: buscar o que ficou fora do currículo. Não por rebeldia, mas por completude.

Curiosidade sem contexto é entretenimento. Curiosidade com contexto é formação.

Isso muda a forma como você aprende qualquer coisa. Não é só sobre educação racial. É sobre perceber que toda área de conhecimento tem uma história de quem foi incluído na construção daquele saber e quem foi apagado. Tecnologia tem isso. Medicina tem isso. Economia tem isso. Reconhecer esse fato não enfraquece o conhecimento. Aprofunda.

O hábito de aprender enquanto se trabalha, enquanto se cria filho, enquanto se vive uma vida cheia de demandas, exige prioridade brutal. Você não vai "achar tempo". Você decide onde o tempo vai. E decidir estudar o que o sistema não te ofereceu de graça é uma das decisões mais conscientes que existe.

Ensinar é uma forma de aprender duas vezes

Um dos formatos do Encontro é o compartilhamento de experiências entre educadores. Esse modelo importa. Quando você explica algo para outra pessoa, você descobre os buracos do que achava que sabia. O erro que a maioria comete é esperar dominar completamente um assunto antes de ensinar. O resultado é que nunca ensinam nada, porque domínio completo não existe.

Ensinar em processo, compartilhar o que você ainda está aprendendo, com honestidade sobre as lacunas, é uma das práticas mais poderosas de consolidação de conhecimento que existe. Não é fraqueza. É método.

A América Latina tem uma tradição pedagógica rica nisso. Paulo Freire passou a vida inteira argumentando que o educador que não aprende com o educando não está educando, está domesticando. O Encontro de setembro carrega essa herança, mesmo que não cite o nome dele em todo painel.

No MUHCAB, na abertura do evento, vai ter gente de países diferentes, com línguas diferentes, com histórias de racismo e resistência diferentes, sentada na mesma sala. O que sai daquela sala não é um consenso fácil. É um mapa mais honesto do que ainda precisa ser aprendido, ensinado, e dito em voz alta. Essa é a melhor definição de aprendizado que conheço.

Perguntas frequentes

O que é o II Encontro Latino-Americano de Educação para as Relações Étnico-Raciais?

É um evento que reúne educadoras e educadores da América Latina para compartilhar experiências e propostas sobre educação étnico-racial. Acontece entre 25 e 27 de setembro de 2026, no Campus Urca da UNIRIO, no Rio de Janeiro, com abertura no Museu da História e da Cultura Afro Brasileira (MUHCAB).

Como o aprendizado ao longo da vida se conecta com questões raciais e de representatividade?

Todo currículo é uma escolha política sobre o que merece ser ensinado e a quem. Buscar ativamente o conhecimento que o sistema educacional deixou de fora, como a história e cultura africana e afro-brasileira, é uma prática de aprendizado contínuo que torna qualquer profissional mais completo e mais honesto.

Por que ensinar algo enquanto ainda se está aprendendo é uma estratégia válida?

Compartilhar o que você está aprendendo, com transparência sobre as próprias lacunas, ajuda a consolidar o conhecimento e revela pontos cegos que o estudo solo não mostraria. Esperar domínio total antes de ensinar é uma armadilha: esse domínio raramente chega.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
← Voltar ao blog