Aprendizado

Aprender no meio do jogo: o que um projeto em Pernambuco revela sobre o único tipo de formação que funciona

Ouça este ensaio · 7 min · A Interseção
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Em Condado, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a Associação Cultural Cavalo Marinho Boi Brasileiro vai receber, durante setembro de 2026, uma formação gratuita em empreendedorismo cultural. O projeto se chama "Empreender na Cultura: o Jogo!" e é uma iniciativa da Liga Criativa, aberta a artistas, produtores, técnicos, estudantes e agentes culturais. As inscrições seguem disponíveis enquanto houver vagas, segundo a Notícia Preta. O nome me parou. O jogo. Não o manual. Não o curso. O jogo.

Isso não é detalhe de marketing. É uma escolha pedagógica. E ela aponta para algo que a maioria das discussões sobre aprendizado ignora: a diferença entre estudar para entrar num campo e aprender enquanto já está dentro dele.

Quando o aprendizado acontece no meio da partida

Existe uma ilusão muito confortável de que a formação vem antes da prática. Primeiro você aprende, depois você faz. A vida real não funciona assim, e qualquer artista ou produtor cultural sabe disso na pele. Você já está criando, já está negociando, já está errando, quando finalmente alguém te oferece uma estrutura para pensar o que você está vivendo.

O formato da Liga Criativa reconhece isso. A capacitação não promete transformar leigos em especialistas. Ela se dirige a pessoas que já estão em movimento, e propõe que o jogo em si seja o espaço de aprendizado. Essa inversão importa mais do que parece.

Aprendi, na prática, que o conhecimento absorvido no meio de um problema real gruda de um jeito diferente. Quando você lê sobre gestão de projetos sem ter nenhum projeto para gerir, as palavras escorregam. Quando você aprende sobre fluxo de caixa com uma apresentação marcada pra semana que vem e o dinheiro no limite, cada conceito vira ferramenta.

Aprender no meio do jogo não é uma gambiarra pedagógica. É, provavelmente, a forma mais honesta de formação que existe.

O problema é que esse tipo de aprendizado exige que você tolere a incerteza. Você não vai dominar o assunto antes de precisar dele. Você vai precisar dele antes de se sentir pronto. E essa sensação de despreparado é o estado natural de quem está crescendo.

A disciplina de estudar sem parar de trabalhar

Tem uma tensão real entre aprender e produzir. O tempo é finito. A demanda não espera. E a maioria das pessoas que eu conheço que consegue sustentar um aprendizado contínuo não faz isso porque tem mais horas no dia. Faz porque tomou uma decisão de arquitetura: colocou o estudo dentro da rotina de trabalho, não ao lado dela.

Isso não é disciplina de ferro. É clareza sobre o que você está construindo. Quando você sabe para onde quer ir, absorver conhecimento novo deixa de ser tarefa e vira combustível.

A iniciativa da Liga Criativa em Condado é gratuita, o que remove uma das barreiras mais óbvias. Mas a barreira que fica é a mais difícil: aparecer. Sentar. Aceitar que você ainda tem o que aprender sobre algo que já faz há anos. Esse movimento de humildade intelectual não é passivo. Ele é ativo e, às vezes, desconfortável.

Artistas e agentes culturais convivem com uma pressão específica: o mercado frequentemente não paga bem pela criação, mas exige profissionalismo na gestão. Você precisa ser o artista e o empreendedor ao mesmo tempo. Saber fazer e saber vender. Essa dupla demanda é exaustiva, e formações como essa existem exatamente para não deixar as pessoas navegando nisso sozinhas.

Curiosidade como hábito, não como talento

Existe uma narrativa sedutora de que algumas pessoas são naturalmente curiosas e outras não. Que aprender ao longo da vida é uma característica de personalidade, não uma prática. Discordo disso.

Curiosidade é um músculo. E como todo músculo, ele atrofia quando não é usado e se fortalece com repetição. O que separa quem continua aprendendo de quem para não é inteligência nem tempo. É o hábito de se expor, regularmente, a algo que você ainda não entende.

Pode ser um projeto de formação em setembro numa cidade do interior de Pernambuco. Pode ser um livro que você lê fora da sua área. Pode ser uma conversa com alguém que vive um problema diferente do seu. O formato importa menos do que a frequência.

O que me chama atenção no projeto "Empreender na Cultura: o Jogo!" é que ele não promete uma certificação. Promete encontros. Promete processo. E talvez seja isso o que a maioria das formações deveria prometer: não um documento no final, mas uma forma diferente de olhar para o que você já faz.

Em algum momento de setembro, alguém vai entrar naquela associação em Condado sem saber exatamente o que vai encontrar, sentar numa roda, e começar a nomear coisas que já vivia sem palavras. Esse momento, pequeno e específico, é onde o aprendizado de verdade começa.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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