Italo Ferreira tem sete meses de paternidade e continua surfando no mais alto nível do circuito mundial. Em agosto de 2026, O Globo publicou uma reportagem sobre como ele está aprendendo a se dividir entre mamadeiras e aéreos, entre o filho Martin e as ondas que o fizeram campeão olímpico. Não tem drama na história. Tem reajuste.
O que me chama atenção não é o desafio logístico de um atleta de elite tentando estar presente. É o que essa situação revela sobre uma verdade que nenhum cargo, nenhuma conquista e nenhum contrato prepara você para enfrentar: quando você vira pai, a vida inteira pede uma nova hierarquia. E essa reorganização não é fraqueza. É o trabalho mais exigente que existe.
O filho não entra no planejamento estratégico
Existe uma ilusão muito conveniente no mundo profissional. A ideia de que tudo pode ser gerenciado, otimizado, encaixado numa agenda bem calibrada. Reunião de manhã, entrega à tarde, ligação com o cliente entre um e outro. O pai presente no final do dia, se der tempo.
Um bebê de sete meses não negocia calendário. Ele não sabe que você tem uma apresentação importante amanhã, que tem um prazo urgente, que a semana está pesada. Ele só sabe que precisa de você agora.
E é exatamente essa ruptura que a paternidade provoca. Ela força você a sair do modo automático e tomar uma decisão explícita: o que, de fato, importa? Não no discurso, não no perfil do LinkedIn. Na prática, no dia a dia, quando o tempo é escasso e você precisa escolher.
Italo Ferreira contratou um coach em tempo integral para manter a performance. Assinou com a Nike. Segue competindo no topo. E ao mesmo tempo está lá com o Martin. Não é equilíbrio perfeito, é adaptação contínua. Tem uma diferença enorme entre as duas coisas.
O que você transmite sem perceber
A gente fala muito sobre deixar legado. Sobre o que vai ficar depois de nós. Mas a maior parte do legado que passamos para os filhos não está nas conversas planejadas, nos conselhos que achamos que estamos dando. Está nos gestos pequenos, repetidos, invisíveis.
Está em como você reage quando algo dá errado. Em quanto você resiste à tentação de fingir que está tudo bem quando não está. Em se você olha nos olhos do seu filho quando ele fala com você, ou se seus olhos já foram pro celular.
Uma criança não aprende quem você quer ser. Ela aprende quem você é quando ninguém está prestando atenção.
Eu penso nisso com frequência. Não no sentido de culpa, mas de responsabilidade com o presente. O filho não vai lembrar do título que você ganhou no ano em que ele tinha dois anos. Ele vai lembrar, de alguma forma que talvez nem consiga nomear, se você estava lá.
Identidade não se passa com um discurso. Se passa com presença. Com o que a criança absorve ao te observar navegar a vida real, com todas as suas contradições e dificuldades e momentos de incerteza.
Paternidade como escola de liderança
Existe uma coisa que a paternidade ensina que nenhum treinamento corporativo consegue replicar: a paciência que não é resignação.
Não estou falando de suportar algo. Estou falando de aprender a estar presente num ritmo que não é o seu. De abrir mão do controle sobre o resultado e confiar no processo. De entender que algumas coisas só acontecem quando acontecem, e que forçar não acelera, só desgasta.
Quem aprende isso com um filho pequeno e traz essa habilidade para o trabalho, para as equipes, para as conversas difíceis, chega num lugar diferente. Menos reativo. Mais firme sem precisar gritar. Mais capaz de esperar sem perder o fio.
A paternidade também ensina algo sobre ambição. Não a extingue, não deveria. Mas a calibra. Você começa a filtrar o que realmente vale a energia que custa. Alguns projetos que antes pareciam urgentes revelam o tamanho real que sempre tiveram: pequeno.
A próxima geração não precisa de pais perfeitos. Precisa de pais honestos, presentes, dispostos a errar na frente deles e a mostrar como se levanta depois. Essa é a herança que não tem como ser terceirizada, delegada, ou empurrada para quando a agenda abrir.
Italo Ferreira vai continuar surfando. O Martin vai crescer. E em algum momento, muito antes do que Italo imagina, o menino vai estar olhando para o pai tentando entender que tipo de homem quer ser. A resposta já está sendo escrita agora, entre uma mamadeira e a próxima onda.