Empreendedorismo

R$ 8,8 bilhões vão chegar ao Brasil. A pergunta é: quem vai ficar com esse dinheiro?

Ouça este ensaio · 6 min · A Interseção
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Em julho de 2027, o Brasil vai sediar a Copa do Mundo Feminina da FIFA. Segundo projeção publicada pela Agência Brasil e repercutida pela Notícia Preta, o torneio deve injetar R$ 8,8 bilhões na economia, gerar 73,7 mil postos de trabalho e movimentar R$ 4,7 bilhões em atividade turística. São números que fazem qualquer gestor público sorrir para a câmera.

Só que grandes eventos econômicos no Brasil têm um histórico bem documentado de distribuir seus benefícios de forma desigual. A Copa de 2014 passou. As Olimpíadas de 2016 passaram. E as comunidades negras das cidades-sede ficaram, em geral, com a conta, com a remoção, com a promessa. A pergunta que me importa fazer agora, com três anos de antecedência, é simples: o empreendedorismo negro vai estar pronto para capturar alguma coisa dessa vez?

O dinheiro sempre encontra um dono

R$ 8,8 bilhões não ficam parados esperando justiça social. Eles fluem pelo caminho que já está preparado: fornecedores cadastrados, contratos formalizados, redes de relacionamento ativadas. Quem tem estrutura captura. Quem não tem, assiste.

O problema não é falta de capacidade empreendedora na população negra. O problema é acesso sistemático a capital, a redes, a informação antecipada. Uma pesquisa do Sebrae já apontou que empreendedores negros enfrentam taxas de rejeição de crédito desproporcionalmente maiores do que empreendedores brancos com perfis econômicos equivalentes. A diferença não está no projeto. Está no sobrenome, no bairro, na pele.

Eventos como a Copa criam janelas. Janelas para fornecimento de alimentação, de hospedagem, de turismo cultural, de artesanato, de segurança, de logística, de tecnologia. Mas essas janelas se abrem e fecham em ciclos de licitação e credenciamento que começam muito antes do apito inicial. Quem não entrou no processo dois anos antes já chegou tarde.

Oportunidade sem posicionamento prévio é só um espetáculo que você assiste da calçada.

Identidade cultural como diferencial competitivo, não como adorno

Há algo que o empreendedorismo negro brasileiro carrega que nenhum manual de MBA consegue replicar: autenticidade cultural em um país que o mundo inteiro quer consumir.

O turista que vai vir para a Copa em 2027 não quer só futebol. Ele quer Salvador, quer o Pelourinho, quer comida baiana, quer percussão ao vivo, quer entender o que é o Brasil de verdade. E o Brasil de verdade é majoritariamente negro. Isso não é romantismo. É dado demográfico e potencial econômico ao mesmo tempo.

Negócios fundados com identidade cultural enraizada têm algo que concorrentes genéricos não conseguem imitar facilmente: pertencimento. Uma pousada gerida por uma família negra no centro histórico de Salvador não está vendendo apenas acomodação. Está vendendo acesso a uma narrativa que o mundo procura. O desafio é transformar essa narrativa em proposta de valor formalizada, em precificação justa, em capacidade de atender escala sem perder a alma.

Acredito que a identidade afro-brasileira, quando tratada como estratégia e não como decoração, vira barreira de entrada para concorrentes. Ninguém copia o que não consegue compreender de dentro.

O que fazer com três anos pela frente

Três anos é tempo suficiente para montar um negócio, qualificar uma equipe, construir um portfólio, entrar em um edital. Não é tempo que sobra, mas é tempo real.

O primeiro movimento é informação. Saber quais cidades vão sediar jogos, quais secretarias vão abrir chamadas de credenciamento, quais organizações do terceiro setor já estão mapeando cadeias de fornecimento locais. Essa informação é pública, mas exige que alguém vá atrás dela com intenção.

O segundo movimento é coletivo. Empreendedores negros que operam de forma isolada têm menos força do que redes de empreendedores negros que dividem estrutura, clientes e contratos. A Copa não vai ser ganha por um vendedor ambulante sozinho na calçada do estádio. Vai ser ganha por quem organizou um consórcio, formalizou um CNPJ conjunto, apresentou proposta com capacidade de entrega.

O terceiro movimento é narrativa. Não a narrativa da vitimização, que cansa e não converte. A narrativa da competência, da raiz, do que só a gente pode oferecer. Quando estética e estratégia caminham juntas, o produto não precisa gritar para ser notado.

A projeção da Agência Brasil fala em R$ 4,5 bilhões em renda gerada pelo evento. Uma fração mínima dessa cifra, bem direcionada para negócios negros estruturados, muda trajetórias de famílias inteiras em cidades inteiras.

Em 2027, o apito vai soar. A questão é o que vai estar funcionando antes disso, nas cozinhas, nas oficinas, nas plataformas, nas mesas de negociação. O espetáculo é a Copa. O jogo de verdade começa agora.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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