Tecnologia

36 Milhões de Idosos Aptos a Votar: o que a Tecnologia Ainda Não Aprendeu Sobre Envelhecer

Ouça este ensaio · 7 min · A Interseção
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Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral divulgados em julho de 2026 e reportados pelo Notícia Preta, mais de 36,8 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais estão aptos a votar neste ano. É o maior contingente de eleitores idosos da história do país, representando 23% do eleitorado nacional. Um número assim deveria dominar o debate sobre estratégia eleitoral, sobre comunicação pública, sobre design de serviços digitais. Deveria. Mas o que domina é o silêncio.

A questão não é apenas política. É uma questão de tecnologia com consequências humanas. Quando um grupo representa quase um quarto do eleitorado e ainda assim enfrenta taxas de abstenção que chegaram a 63,6% entre os maiores de 70 anos em 2014, segundo a Veja, alguma coisa no sistema falhou. E parte dessa falha tem endereço certo: os sistemas digitais que deveriam facilitar participação, mas foram construídos sem pensar em quem os usa.

O problema não é a idade. É o design.

Existe uma narrativa cômoda que coloca o idoso como o problema. "Eles não sabem usar tecnologia." "É difícil alcançar esse público." A narrativa inverte a responsabilidade.

Tecnologia que só funciona para um recorte específico de usuário não é tecnologia bem-feita. É tecnologia inacabada. A acessibilidade não é um recurso extra que se adiciona depois que o produto está pronto. É uma decisão de arquitetura que se toma no início, ou não se toma.

Aplicativos de serviço público com fontes pequenas, fluxos de autenticação que exigem biometria facial de qualidade duvidosa em câmeras de entrada de linha, notificações que assumem que o usuário lê tudo em segundos. Cada um desses detalhes é uma barreira. Somados, são uma exclusão sistêmica.

O dado da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados é revelador: o eleitorado idoso cresceu 74% em 16 anos, de 20,8 milhões em 2010 para 36,2 milhões agora. O Brasil envelheceu mais rápido do que os sistemas pensados para servi-lo conseguiram acompanhar.

Quando a tecnologia não acompanha a demografia, a exclusão não precisa ser intencional para ser real. Ela acontece por omissão, e omissão também é uma escolha de design.

Dados que ninguém está usando direito

O TSE tem os dados. Sabe onde estão esses eleitores, em que municípios, em que zonas eleitorais, com que perfil. A informação existe. O que falta é a decisão de usá-la para construir sistemas de mobilização que realmente cheguem a essas pessoas, e não apenas que sejam tecnicamente disponíveis para elas.

Há uma diferença enorme entre disponível e acessível. Um portal que funciona no celular mas exige três camadas de senha, confirmação por e-mail e leitura de termos em fonte tamanho 10 é tecnicamente disponível. Não é acessível.

A abstenção entre maiores de 70 anos caiu de 63,6% em 2014 para 58,9% em 2022, segundo a Veja. Uma queda real, que indica que o problema não é intratável. Mas ainda significa que, em 2022, mais da metade desse grupo não foi às urnas. Governança de dados cívicos deveria estar tratando esse número como emergência.

O que me chama atenção é que as ferramentas para resolver isso existem. Análise preditiva para identificar zonas de alto risco de abstenção. Canais de comunicação que funcionam por SMS e não dependem de smartphone de última geração. Interfaces testadas com usuários reais de diferentes faixas etárias, não apenas com o perfil do desenvolvedor que as criou.

A lacuna entre o que a IA pode fazer e o que está fazendo

Vivemos um momento em que inteligência artificial consegue gerar imagens fotorrealistas em segundos, resumir contratos jurídicos complexos, diagnosticar doenças a partir de exames. A capacidade técnica está ali. A pergunta que precisa ser feita com mais urgência é: a favor de quem ela está sendo dirigida?

Modelos de linguagem e sistemas de recomendação são treinados, em geral, com dados produzidos por usuários jovens, urbanos, com acesso a dispositivos modernos. Quando esses modelos informam o design de interfaces públicas, eles carregam esse viés embutido. Não por malícia. Por omissão na hora de coletar dados representativos e por falta de diversidade nos times que tomam as decisões de produto.

Governança de IA não é só sobre viés racial ou de gênero, que são questões urgentes. É sobre qualquer dimensão da vida humana que o sistema ignora porque não foi incluída no raciocínio inicial. Idade é uma dessas dimensões.

36,8 milhões de brasileiros estão aptos a votar e muitos deles vão encontrar, no caminho entre a intenção e o voto, sistemas que não foram pensados para eles. Algum técnico, em alguma reunião de produto, teve a chance de incluir esse usuário no escopo. A pergunta que fica é simples: ele estava na sala?

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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