Identidade Negra

A Justiça Que Não Enxerga Igual: Identidade Negra Num Sistema Que Julga Antes de Ouvir

A diretora de De Menor – A Série, que estreia no Canal Brasil em 25 de junho, escolheu uma pergunta simples como ponto de partida do seu trabalho: "A Justiça é igual para todos?" Qualquer pessoa negra que leia essa frase sabe, antes mesmo de assistir a qualquer episódio, que a resposta não é fácil. A pergunta não é retórica. É uma ferida aberta.

A série, segundo o Notícia Preta, aborda racismo estrutural e os julgamentos que adolescentes em situação de vulnerabilidade enfrentam. Mas o que me chama atenção não é só o que acontece dentro dos tribunais. É o que acontece muito antes disso. O julgamento começa cedo. Começa no olhar. Começa na escola. Começa quando uma criança negra de cinco anos percebe, pela primeira vez, que o mundo a lê de um jeito diferente.

O Julgamento Que Começa na Infância

Segundo a Agência Brasil, 16% dos cuidadores relataram que crianças de até 6 anos já sofreram discriminação racial. Entre cuidadores negros ou pardos, esse número sobe para 19%. Não estamos falando de adolescentes. Estamos falando de crianças que ainda não sabem ler.

Existe algo brutal nisso. A criança negra aprende a se defender de um preconceito que ela ainda não tem palavras para nomear. Ela internaliza a desconfiança alheia antes de construir a própria autoconfiança. E carrega esse peso como se fosse algo seu, como se fosse um defeito de origem.

Não é. Nunca foi.

O problema é que o sistema, quando chega a hora de julgar essa mesma criança já crescida, traz consigo décadas de olhares enviesados, de presunções de culpa, de portas que se fecham antes da entrada. O Portal CNJ aponta que, em 2025, foram registrados cerca de 7 mil novos casos de racismo no país, um número significativamente maior do que anos anteriores. E 97,4% dos processos pendentes relacionados a racismo tramitam na Justiça Estadual, longe dos holofotes, fora do debate público.

O sistema não julga no vácuo. Ele julga com os preconceitos que a sociedade depositou nele ao longo de gerações.

Identidade Como Resposta, Não Como Defesa

Crescer negro no Brasil é aprender a se mover num espaço que não foi desenhado para você. Os espaços profissionais predominantemente brancos ensinam, de maneiras sutis e nem tão sutis assim, que você precisa ser menor, mais suave, menos você. Que sua presença já é, por si só, uma inconveniência que exige justificativa.

O que a arte como De Menor faz, e faz bem, é recusar essa lógica. Ela coloca no centro quem o sistema empurra para a margem. Ela pede ao espectador que olhe de frente para o que preferia não ver.

"Quero convidar o espectador à reflexão: a Justiça é igual para todos?" A pergunta da diretora da série não tem uma resposta no roteiro. Tem uma resposta na vida de cada pessoa que assiste.

Acredito que identidade negra não é um tema de nicho. É uma questão central sobre como o Brasil se organiza, quem ele protege e quem ele abandona. Quando um jovem negro reconhece sua ancestralidade como fonte de força, e não como fardo, algo muda na forma como ele ocupa o espaço. Ele para de pedir licença para existir.

Esse movimento não é ingênuo. Ele não ignora o racismo estrutural, não finge que a desigualdade é menor do que é. Mas ele recusa que a narrativa da violência seja a única narrativa disponível. Beleza negra, excelência negra, pertencimento negro. Essas não são declarações de autoajuda. São atos políticos.

O Que Fica Depois da Série

Uma obra de arte não resolve um problema estrutural. De Menor não vai mudar sozinha o sistema de Justiça. Mas ela pode fazer algo que dados e relatórios raramente conseguem: ela pode fazer uma pessoa branca, sentada no sofá, sentir o peso de uma injustiça que nunca foi dela carregar.

E pode fazer uma pessoa negra, sentada no mesmo sofá, perceber que o que ela viveu tem nome, tem história, tem outras pessoas do outro lado.

Representação não é conforto. É reconhecimento. É olhar para uma tela e pensar: "aquilo que eu senti era real." Esse reconhecimento não apaga o julgamento que veio antes. Mas muda o que vem depois.

A criança de cinco anos que a pesquisa da Agência Brasil menciona vai crescer. Ela vai entrar em salas de aula, em escritórios, em tribunais. A pergunta da diretora vai continuar esperando por ela na porta.

O que muda é se ela vai chegar até essa porta sabendo quem é.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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