Tecnologia

A tecnologia que chega pela porta da frente da favela

Em junho de 2026, a CUFA e o iFood anunciaram a consolidação e a ampliação da parceria que mantêm desde 2020. O objetivo declarado é fortalecer o ecossistema periférico, unindo tecnologia social e tecnologia digital para acelerar o empreendedorismo nas favelas brasileiras. A meta é impactar mais de 3 mil pessoas. Não é uma notícia de tecnologia. É uma notícia sobre quem a tecnologia decide enxergar.

Existe uma pergunta que o setor de tecnologia empurra para debaixo do tapete: a quem esse sistema foi construído para servir? Plataformas de delivery, algoritmos de crédito, programas de aceleração, tudo isso nasce com um usuário padrão em mente, e esse usuário raramente mora na periferia. Quando uma parceria como essa muda a direção, vale parar e entender o que está acontecendo de verdade.

O que os números revelam sobre acesso

Em 2022, a parceria entre CUFA e iFood gerou R$ 2,7 milhões em recursos para a CUFA, segundo dados da própria organização. Esse número importa, mas o que ele representa vai além do valor financeiro: é a prova de que a tecnologia de plataforma, quando direcionada com intenção, consegue movimentar capital para onde ele historicamente não chega.

O programa iFood Acredita, lançado em junho de 2023 com foco em empreendedores negros, rodou um piloto em Salvador. O resultado, segundo dados da plataforma, foi um aumento médio de 23,4% nas vendas dos restaurantes participantes. Não é um número pequeno. É a diferença entre fechar o mês no vermelho ou reinvestir no negócio.

O que me chama atenção não é o crescimento em si. É que esse crescimento aconteceu com pessoas que já estavam trabalhando, já tinham produto, já tinham clientela local. O que faltava era acesso à infraestrutura digital, e, por tabela, ao mercado que essa infraestrutura movimenta.

Infraestrutura nunca foi neutra. Quem decide onde passa a estrada decide quem prospera. No mundo digital, quem decide como funciona o algoritmo de ranqueamento, quem recebe crédito na plataforma, quem aparece primeiro na busca, essa arquitetura invisível distribui oportunidade ou a concentra.

Tecnologia social não é tecnologia de segunda categoria

Existe um preconceito silencioso no ecossistema de inovação: a ideia de que tecnologia "social" é tecnologia menor, menos sofisticada, menos escalável. Quem pensa assim confunde complexidade técnica com impacto real.

A CUFA não opera com algoritmos de recomendação ou modelos de linguagem generativa. Opera com conhecimento de território, confiança comunitária e capacidade de mobilização que nenhuma startup construiu em cinco anos de rodadas de investimento. Quando essa inteligência encontra a infraestrutura digital do iFood, o resultado não é tecnologia social sendo elevada. É uma troca genuína entre dois tipos de competência.

A pergunta certa não é "como a tecnologia pode ajudar a favela?", é "o que a favela já sabe que a tecnologia ainda precisa aprender?"

Comunidades periféricas operam com restrição de recurso há décadas. Isso produziu uma capacidade de resolver problemas complexos com pouco, de criar redes de confiança onde o Estado nunca chegou, de adaptar produto e serviço para um público que o mercado formal ignorou. Isso tem nome: inovação frugal. E ela precede qualquer metodologia de startup.

Para onde isso aponta

O movimento mais interessante aqui não é filantrópico. É estratégico. Plataformas que ignoram a periferia estão ignorando um mercado enorme, uma força de trabalho criativa e um conjunto de problemas que, quando resolvidos, escalam para o resto da sociedade.

Acredito que estamos no começo de uma reconfiguração sobre onde a inovação nasce. Por muito tempo, o modelo dominante foi o do centro para a margem: a tecnologia surge nos hubs, nas universidades de elite, nas aceleradoras do eixo Sul-Sudeste, e eventualmente "chega" à periferia na forma de produto acabado. Esse modelo produz soluções que não encaixam, porque foram pensadas para um contexto diferente.

O modelo que a parceria CUFA-iFood experimenta inverte a lógica. A plataforma entra, mas entra para aprender tanto quanto para oferecer. O empreendedor da favela não é o beneficiário passivo de uma ação de responsabilidade social. É o protagonista de um mercado que a plataforma quer entender.

Se esse modelo se consolidar, a pergunta que vai guiar a próxima década de tecnologia não será "como escalar nosso produto para novos mercados". Será "como construir com quem esse produto ainda não enxerga". E a diferença entre essas duas perguntas é tudo.

Em Salvador, tem um restaurante que vendeu 23,4% a mais depois de entrar num programa. O dono provavelmente não leu nenhum relatório sobre isso. Ele só fechou o mês diferente.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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