Identidade Negra

O Baobá Não Precisa de Permissão Para Crescer

Samuel Gomes vai a Angola receber um prêmio e, no mesmo movimento, filma um documentário sobre identidade negra, ancestralidade e apagamentos históricos. Segundo o Mundo Negro, o comunicador e criador do projeto Guardei no Armário será homenageado na primeira edição internacional do Prêmio Baobá, reconhecimento que celebra pessoas com impacto real na diáspora africana. A imagem que fica é essa: um homem negro que atravessa o Atlântico não só para ser reconhecido, mas para registrar o que sempre esteve lá antes dele.

O que me chama atenção nisso não é o prêmio. É o gesto duplo. Receber e documentar ao mesmo tempo diz algo sobre como pessoas negras frequentemente operam: produzindo memória enquanto constroem presença. São dois atos de resistência que parecem distintos, mas nascem da mesma raiz.

O que se perde quando a identidade vira estratégia de sobrevivência

Cresci aprendendo, de formas que ninguém precisou verbalizar, que certos espaços tinham um custo de entrada não declarado. Reuniões onde você era o único rosto negro. Ambientes onde a sua competência era recebida com uma surpresa que ninguém se dava ao trabalho de esconder. Você aprende a calibrar, a suavizar, a tornar sua presença palatável.

Esse processo tem um nome. Alguns chamam de code-switching. Outros chamam de sobrevivência. Eu chamo de desgaste.

O problema não é só o que você esconde. É o quanto de energia você gasta escondendo. É a versão de você mesmo que fica do lado de fora da sala enquanto você entra.

Identidade negra não é um tema a ser gerenciado em ambientes profissionais. É um ponto de vista que, quando levado inteiro para dentro da sala, muda a qualidade do que se constrói ali.

Quando Samuel Gomes nomeia seu projeto Guardei no Armário, ele fala de algo que vai além da experiência LGBTQIA+, embora parta dela. Fala do ato de guardar partes de si como condição para ser aceito. E a pergunta que o trabalho dele provoca é simples e pesada: o que se perde no processo?

Ancestralidade não é nostalgia, é tecnologia

Angola não é um destino aleatório nessa história. É um dos centros históricos da diáspora africana, um lugar onde o Atlântico começa, não onde ele termina. Ir até lá para filmar sobre identidade é um ato que recusa a ideia de que nossas referências chegam de fora para dentro. Às vezes, a direção é outra.

O Prêmio Baobá, segundo o Mundo Negro, existe para reconhecer justamente esse tipo de impacto: pessoas que movem a diáspora de forma concreta. O baobá, como imagem, já carrega tudo que precisa. É uma árvore que armazena água dentro do próprio tronco. Sobrevive à seca por dentro, não por fora.

Penso nisso quando vejo jovens negros descobrindo referências históricas que o currículo escolar deliberadamente omitiu. Não é sentimentalismo. É instrumentalização de algo que sempre existiu e que foi sistematicamente mantido fora do alcance.

Ancestralidade, nesse sentido, é uma forma de inteligência coletiva acumulada. Saber de onde você vem muda como você lê o presente. Muda o que você aceita. Muda o que você recusa.

Presença como argumento

Existe uma diferença entre tolerar espaços predominantemente brancos e habitá-los. Tolerar é chegar e diminuir. Habitar é chegar inteiro e redefinir, pela simples presença, o que aquele espaço pode conter.

Não é arrogância. É uma recusa de uma negociação que nunca foi justa.

O trabalho de criadores como Samuel Gomes importa justamente porque documenta isso em tempo real. Não espera o reconhecimento institucional para validar o que já é real. Produz o arquivo enquanto vive a história. E atravessa um oceano para buscar a parte da história que ficou do outro lado.

O documentário ainda não foi lançado. As cenas estão sendo filmadas agora, em Angola, enquanto o prêmio é entregue e o baobá segue guardando água dentro do tronco, indiferente à seca lá fora.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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