Li semana passada uma frase da Elisa Lucinda que não saiu mais da minha cabeça. Aos 40 anos de carreira, ela voltou ao palco com o espetáculo Ensaio para uma Ideia, retomando o formato que a revelou nos anos 1980, e disse algo que me parou: "Somos os mais jovens velhos que a humanidade já teve." Reportagem do Mundo Negro de junho de 2026 registrou isso com a leveza que só quem viveu muita coisa consegue carregar. Elisa tem 40 anos de palco, poesia, teatro, ativismo. E escolheu não arquivar nada disso, escolheu reassemblar.
Esse movimento dela me diz algo direto sobre carreira que poucos falam sem rodeios: depois dos 40, a questão não é mais o que você ainda vai conquistar. A questão é o que você faz com tudo que já conquistou. E essa virada de pergunta muda tudo.
Quinze anos carregando dado alheio, e o que sobrou
Entrei na Symantec em 2010 como Technical Account Manager de DLP. Proteção de dados, prevenção de vazamento, políticas de classificação. Passei oito anos nisso, fui promovido a Principal TAM, depois fui para Forcepoint cobrindo o LATAM inteiro como engenheiro de pré-vendas em cibersegurança. Depois virei BigID, implementando para enterprises globais, e hoje desenho treinamentos de segurança de dados e governança de IA para engenheiros, arquitetos e profissionais de privacidade na América Latina, América do Norte, Europa, APAC.
São 15 anos de tecnologia, quatro empresas, três idiomas, dois continentes no dia a dia. Mas o que ficou mesmo não foi o certificado nem o cargo. Foi a capacidade de sentar numa sala com 20 executivos que não entendem por que seus dados estão expostos e conseguir traduzir o problema de um jeito que faça sentido para cada um deles.
Isso não se aprende em seis meses de bootcamp. Não tem atalho.
Experiência não é o tempo que você passou fazendo uma coisa. É a densidade do que você entendeu enquanto fazia.
Quando chego num cliente novo hoje, trago na bagagem cada implementação que deu errado, cada reunião que precisei reconquistar, cada arquitetura que precisei redesenhar às 23h antes de uma entrega. Essa bagagem não pesa. Ela sustenta.
Reinventar não é apagar
Em 2022, fundei a DePretoPraPreto. Uma marca de ciclismo afro-brasileiro, jerseys, identidade, movimento. Muita gente ao redor achou estranho. Um cara de cibersegurança lançando marca de roupa de bike? Com MBA na FGV acontecendo ao mesmo tempo?
O que essas pessoas não enxergavam é que a DePretoPraPreto não nasceu apesar da minha carreira em tech. Ela nasceu por causa dela. Quinze anos entendendo como grandes organizações protegem o que têm de mais valioso me deu clareza sobre o que eu queria proteger também: a presença negra nos espaços que historicamente tentaram nos afastar.
Ciclismo no Brasil é um esporte caro, branco, muito branco. A DePretoPraPreto existe para friccionar isso. Para dizer que beleza negra e excelência negra sempre andaram juntas, mesmo quando o mercado fingia não ver.
Estar na Feira Preta com a marca, ao lado de fundadores, artistas e ativistas, foi um dos momentos em que senti com mais clareza que carreira e identidade não precisam morar em gavetas separadas. Podem, e devem, ocupar o mesmo espaço.
Elisa Lucinda fez o mesmo. Não partiu para algo completamente diferente dos seus 40 anos. Voltou à essência do que sempre foi, com tudo que acumulou no corpo e na voz. Reassemblar, não apagar.
O que muda depois dos 40
Muda o critério de sucesso. Simples assim.
Antes, eu media muito pelo título no cartão, pela complexidade do cliente, pelo tamanho do contrato que ajudei a fechar. Hoje meço pela qualidade do que deixo para trás. O profissional que eu mentorei que cresceu. O treinamento que mudou a forma como uma equipe inteira pensa sobre privacidade de dados. O jersey que uma criança negra viu numa foto e pensou pela primeira vez que ciclismo também pode ser dela.
Ambição continua aqui. Não sumiu. Mas ganhou endereço. Deixou de ser difusa e virou específica.
Tem um dado que me interessa muito nessa conta: o MBA na FGV, o pós em Privacidade no IDESP, o programa de IA e ML no MIT em parceria com o Infnet, tudo isso acontece depois dos 40. Não apesar da idade. Com ela. Porque o contexto que eu trago para cada aula, cada leitura, cada projeto aplicado, é contexto que aos 28 anos eu simplesmente não teria.
Aprendi tarde, mas aprendo fundo. E fundo dura mais.
Elisa Lucinda subiu no palco do Manouche, na Zona Sul do Rio, com 40 anos de carreira no corpo, e escolheu ensaiar uma ideia nova sobre os mesmos pilares de sempre. Imagino ela no camarim antes de entrar, olhando para o espelho, sem precisar provar nada para ninguém, e mesmo assim decidindo entrar em cena. Não sei se há imagem mais honesta do que significa continuar depois dos 40.