Identidade Negra

O Ódio Que Se Divide, Mas Nunca Se Separa

Na semana passada, li no Geledés sobre o Projeto de Lei da Misoginia, de autoria da deputada Ana Paula Lobato. A proposta quer incluir no Código Penal e na Lei nº 7.716/1989, a Lei de Crimes Raciais, a tipificação de crimes cometidos por ódio, desprezo ou aversão às mulheres. Fiquei parado com o texto aberto na tela por uns dez minutos. Não de surpresa. De reconhecimento.

Porque o debate que esse projeto acende não é só jurídico. É sobre a arquitetura do ódio no Brasil. E quando você lê que, segundo o Geledés, 50% das mulheres negras relatam sofrer racismo no cotidiano, e que 30% das mulheres brasileiras já vivenciaram alguma forma de violência de gênero, você entende que esses números não somam. Eles se multiplicam. Misoginia e racismo estrutural no Brasil não são problemas paralelos que a legislação pode resolver em filas separadas.

O corpo que carrega mais de um alvo

Cresci vendo isso sem ter nome pra isso. Via as mulheres da minha família navegando ambientes que as ignoravam duas vezes: uma pelo gênero, outra pela cor. No trabalho, no banco, na sala de espera do consultório.

Quando entrei no mundo corporativo, em tecnologia, em segurança de dados, esse padrão ganhou outro endereço. As reuniões tinham um perfil muito claro: majoritariamente brancas, majoritariamente masculinas. Cada vez que uma mulher negra entrava naquele espaço, o ambiente reagia de um jeito que ninguém verbalizava, mas todo mundo sentia. Ela precisava se apresentar duas vezes. Uma para o cargo, outra para o corpo.

Fui construindo consciência sobre isso aos poucos. Primeiro como observador. Depois como alguém que também ocupa espaços onde não é esperado. E aprendi que entender a própria experiência como homem negro profissional não me isenta de examinar o que acontece com as mulheres ao meu redor, especialmente as negras.

Quando a lei propõe nomear o ódio, ela faz algo necessário. Mas nomear sem transformar o solo onde esse ódio cresce é construir uma cerca em volta de uma enchente.

Identidade como mapa, não como âncora

Fundei a DePretoPraPreto com a convicção de que estética e identidade são atos políticos. Um jersey de ciclismo com referência afro-brasileira não é só roupa. É a afirmação de que esse corpo, nesse esporte, nessa estrada, pertence aqui.

Mas a Feira Preta me ensinou algo que a marca sozinha não consegue: nenhum projeto de identidade negra sobrevive em silos. A mulher negra que compra um jersey, que pedala, que ocupa espaço público com o próprio corpo, enfrenta uma equação de risco que eu não enfrento da mesma forma. Ignorar isso seria reduzir identidade a estética sem estratégia.

Na BigID, onde hoje trabalho com governança de dados e privacidade, a conversa sobre proteção de informação tem tudo a ver com isso. Dados pessoais de populações vulneráveis, quando expostos ou mal tratados, ampliam exatamente as desigualdades que uma lei como a da misoginia tenta conter. A proteção começa antes da violência. Começa na arquitetura dos sistemas, na política pública, na sala de aula.

É por isso que o projeto da deputada Lobato importa, mas não basta. A lei cria ferramenta. Ferramenta sem mão treinada não funciona. Programas educacionais, redes de apoio reais para vítimas, mudança nas atitudes institucionais: sem isso, a lei vira símbolo sem substância.

O que a ancestralidade exige da gente

Tenho pensado muito em herança. Não só a que recebo, mas a que construo. Meu MBA na FGV, a pós em privacidade, o curso de IA no MIT e no Infnet: tudo isso é acúmulo deliberado. Uma forma de chegar em certas salas com credencial suficiente pra que o debate seja sobre ideia, não sobre legitimidade.

Mas há um custo nisso que raramente discutimos. O custo de ter que provar, sempre, que você pertence. E esse custo é ainda mais alto para mulheres negras, que carregam a prova dobrada.

Ancestralidade, pra mim, não é só reverência ao passado. É responsabilidade com o presente. Significa que quando um projeto de lei chega propondo nomear o ódio contra mulheres, minha resposta não pode ser silêncio ou neutralidade técnica. Significa que construir marca, produto, carreira com identidade negra sem se perguntar quem mais está nessa luta é perder a metade do mapa.

Naquela manhã em que fiquei olhando pra tela com o texto do Geledés aberto, lembrei de uma frase que ouvi na Feira Preta, de uma mulher que vendia tecidos estampados com motivos do candomblé. Ela disse, sem cerimônia, pra ninguém em especial: "A gente não sobreviveu até aqui pra sobreviver sozinha." O jersey novo estava na sacola do meu lado. A estrada ainda estava pela frente.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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