Tecnologia

Quando o algoritmo chega antes do servidor público: o que a fila do INSS revela sobre tecnologia e dignidade

Quando li a notícia no Notícia Preta, parei no meio do café da manhã. A fila do INSS caiu de 1,9 milhão para 765 mil pedidos atrasados, uma redução de 60,26% entre janeiro e maio deste ano. Números assim deveriam parecer vitória. E de certa forma são. Mas a primeira coisa que veio à minha cabeça não foi uma celebração, foi uma pergunta: quantas dessas 1,9 milhão de pessoas são idosas, negras, periféricas, que passaram meses sem renda esperando uma resposta de um sistema que existe para protegê-las?

O que está em jogo aqui não é gestão pública. É o que acontece quando a tecnologia chega tarde. Quando os sistemas que deveriam processar decisões críticas acumulam filas de mais de 45 dias porque a infraestrutura, os dados e os processos nunca foram tratados como prioridade estratégica. O governo federal quer zerar o estoque até setembro. Mas esse número, 1,9 milhão de pedidos represados, já existia antes de virar manchete. Ele estava crescendo em silêncio, dentro de um banco de dados que ninguém olhava com urgência.

Dado não processado é sofrimento represado

Trabalho com dados há mais de quinze anos. Passei anos na Symantec protegendo dados corporativos de vazamentos, depois na Forcepoint construindo estratégias de segurança para grandes empresas da América Latina, e hoje na BigID ajudo organizações a entender o que elas têm, onde está guardado, e o que fazem com isso. O que aprendi nesse percurso é que dado não é só dado. Dado é decisão. E decisão atrasada tem custo humano.

Quando um sistema acumula quase dois milhões de pedidos sem análise, o problema raramente é falta de vontade política. O problema quase sempre está na camada mais funda: dados desorganizados, processos manuais onde poderiam existir automações, ausência de visibilidade sobre o que está pendente e por quê. É exatamente o tipo de problema que vejo em empresas privadas também. A diferença é que, numa empresa, o dado represado custa dinheiro. No INSS, ele custa o aluguel de alguém, a comida de alguém, a saúde de alguém.

Tecnologia que não chega a quem mais precisa não é inovação. É privilégio com interface bonita.

A redução de 60,26% no estoque, segundo o Notícia Preta, é real e precisa ser reconhecida. Mas ela também revela o tamanho do buraco que existia. Significa que o sistema tinha capacidade operacional para avançar muito antes, e por alguma razão não avançou. Isso me interessa mais do que o número atual. Quais decisões técnicas e institucionais deixaram aquele passivo crescer?

Automação sem equidade é só velocidade

No meu trabalho com governança de dados e IA, uma das conversas que mais se repete com clientes é sobre automação responsável. É fácil automatizar o que já funciona bem. O desafio real é automatizar o que está quebrado sem reproduzir as falhas em escala industrial.

Um modelo de IA treinado em dados históricos do INSS, por exemplo, pode aprender padrões legítimos de concessão de benefícios. Mas também pode aprender vieses históricos sobre quem recebe resposta rápida e quem fica na fila. Se os dados de treinamento refletem um sistema que sempre atendeu mal as populações mais vulneráveis, o algoritmo vai perpetuar exatamente isso, só que mais rápido e com menos questionamento humano no meio do caminho.

Governança de IA não é burocracia. É a diferença entre um sistema que escala justiça e um que escala injustiça. E esse princípio vale tanto para o setor público quanto para qualquer empresa que hoje está correndo para colocar agentes de IA em produção sem perguntar: quem esse sistema pode prejudicar?

A tecnologia como ato político

Quando fundei a DePretoPraPreto, a marca de ciclismo afro-brasileiro, não foi por acaso que as primeiras conversas foram sobre estética e identidade, não sobre logística ou precificação. Porque eu sabia que a forma como você se apresenta ao mundo carrega uma mensagem sobre quem pertence àquele espaço. O ciclismo no Brasil tem o mesmo problema que a tecnologia no Brasil: a maioria das pessoas que constroem o produto não se parece com a maioria das pessoas que mais precisam dele.

Tecnologia é política. Sempre foi. A escolha de qual problema automatizar primeiro, qual dado priorizar, qual população incluir no escopo de um sistema, tudo isso é uma decisão que reflete valores. Não existe sistema neutro. Existe sistema cujos valores você conhece, e sistema cujos valores você ainda não parou para examinar.

O governo vai zerar a fila do INSS até setembro. Torço para que consiga. Mas a pergunta que fica, e que não vai desaparecer com o estoque zerado, é: o que foi construído de verdade para que esse acúmulo nunca mais aconteça? Infraestrutura de dados, capacidade de processamento, governança, visibilidade em tempo real sobre o que está represado e onde.

Naquela manhã, terminei o café pensando nas mãos que assinaram os requerimentos, em janeiro, esperando. Uma resposta que o sistema sabia que existia, mas ainda não tinha encontrado o caminho de volta.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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