Aprendizado

O que ninguém me ensinou na escola, aprendi estudando de novo

Eu tinha acabado de terminar uma aula sobre governança de dados para um grupo de engenheiros na Europa quando vi a notícia: a pesquisadora e militante Josiane Cristina Climaco lançava um livro pela Editora Revista África e Africanidade revisitando as matrizes africanas na educação física brasileira. O título era longo, denso, comprometido: Educação Física e Matrizes Africanas: Por uma proposição crítico superadora e antirracista. Li o resumo numa pausa entre sessões. E fiquei parado por um tempo maior do que eu esperava.

O livro toca num ponto que vai muito além da educação física. A tese central é que o currículo tradicional apaga as contribuições africanas das práticas corporais brasileiras e mantém uma narrativa eurocêntrica como se fosse neutra, como se fosse a única. Isso me interessa diretamente, porque aprendi cedo que o conhecimento que me foi apresentado como universal raramente me incluía. E a pergunta que carrego desde então é: o que significa aprender, de verdade, quando boa parte do que foi ensinado foi construído sem você?

Estudar é um ato que nunca termina

Em 2022 entrei no MBA da FGV. Eu já trabalhava há mais de uma década em cibersegurança, tinha liderado implementações técnicas em clientes enterprise no mundo inteiro, e mesmo assim senti que precisava de um novo ângulo. Não era insegurança. Era curiosidade com intenção.

Terminei o MBA em 2024 e emendei numa pós-graduação em privacidade no IDESP. Agora estou no meio de uma formação em IA e aprendizado de máquina pelo MIT em parceria com o Instituto Infnet. Três programas em quatro anos, todos enquanto trabalhava em tempo integral como trainer técnico sênior na BigID, criando experiências de aprendizado para profissionais de segurança de dados na América Latina, América do Norte, Europa e Ásia-Pacífico.

Tem gente que me pergunta como consigo. A resposta honesta é que não consigo sempre. Tem semana que o cansaço é físico. Mas aprendi que a alternativa, parar de estudar, custa mais caro do que qualquer fadiga.

O que me sustenta não é disciplina no sentido militar do termo. É que eu genuinamente quero entender. Cada vez que entro numa sala de aula, seja como aluno ou como instrutor, carrego a mesma pergunta: o que eu ainda não sei que vai mudar como eu vejo isso?

Aprender não é acumular informação. É revisar o que você já aceitava como dado, e ter coragem de questionar isso em público.

O que ensinar me ensinou a aprender

Quando você passa a ensinar, percebe rapidamente que o seu conhecimento tem buracos que você nunca tinha visto. Numa aula sobre privacidade por design para arquitetos de dados em Singapura, alguém fez uma pergunta que eu não soube responder na hora. Não fingi. Disse que ia pesquisar e traria na próxima sessão. Trouxe.

Esse ciclo, a pergunta que você não sabe responder te obrigando a aprender, é o mecanismo mais honesto que conheço para o crescimento técnico. É muito mais eficiente do que qualquer currículo linear.

O livro de Josiane Climaco fala exatamente sobre isso quando propõe que a formação docente precisa ser revisitada para incluir o que foi historicamente excluído. A obra aponta que a educação física brasileira, como campo de saber, frequentemente negligencia as contribuições do continente africano nas práticas corporais, como se essas contribuições não existissem ou não tivessem peso epistemológico. Essa crítica não é só sobre esporte ou movimento. É sobre quem tem autoridade de produzir conhecimento e quem fica de fora dessa conversa.

Quando fundei a DePretoPraPreto, minha marca de ciclismo afro-brasileiro, enfrentei um mercado que não me via como público, muito menos como criador. A estética era europeia, as referências eram europeias, os corpos nas campanhas eram europeus. Reinventar isso exigiu o mesmo músculo que uso quando estudo: a disposição de questionar o que está posto e construir a partir de outro ponto de partida.

A reinvenção não é um evento, é uma prática

Tem uma ilusão comum no mundo da tecnologia de que você chega num ponto de expertise e a partir daí só aprofunda. Não funciona assim. A área de privacidade de dados que eu estudo hoje em 2025 não existia no formato atual quando comecei na Symantec em 2010. A regulatória mudou, as ferramentas mudaram, o próprio conceito de dado pessoal se expandiu com a IA generativa.

Quem parou de aprender há cinco anos está respondendo perguntas de 2019 num mundo de 2025.

A reinvenção constante do repertório técnico não é uma virtude especial. É uma exigência do campo. O que é opcional é a curiosidade com que você entra nesse processo. Você pode estudar por obrigação, por medo de ficar para trás, ou pode estudar porque o mundo é genuinamente interessante e você ainda não entendeu metade dele.

Eu escolhi a segunda opção. Ainda bem.

Naquela tarde, depois de ler sobre o trabalho de Josiane Climaco, fechei o computador e fui pedalar. Levei a pergunta comigo: o que mais eu aprendi como verdade que foi construído me deixando de fora? A resposta ainda está incompleta. E talvez seja exatamente isso que me faz continuar estudando.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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