Empreendedorismo

A Feira Preta Me Ensinou o Que Nenhum MBA Conseguiu

Era sábado de manhã na Feira Preta quando percebi que tinha errado o cálculo. Eu tinha chegado cedo, montado o estande da DePretoPraPreto com os jerseys dobrados com cuidado, a identidade visual no lugar, tudo alinhado. Mas o que aconteceu nas três horas seguintes não era o que eu tinha planejado numa planilha. As pessoas não chegavam perguntando o preço. Elas chegavam e ficavam paradas, olhando. Uma mulher disse: "Eu nunca imaginei me ver assim numa roupa de ciclismo." Aquilo travou o meu raciocínio.

Construir um negócio com identidade cultural não é uma estratégia de nicho. É um ato de ruptura. A DePretoPraPreto nasceu da convicção de que beleza negra e ciclismo sempre andaram juntos, mas que o mercado decidiu ignorar essa verdade por décadas. O que estou fazendo não é preencher uma lacuna de mercado. Estou contestando quem teve o direito de existir dentro de certos espaços.

Quando o Produto É Também um Argumento

Trabalho com dados, segurança da informação e governança de IA há mais de quinze anos. Aprendi que todo sistema tem uma lógica embutida, e que essa lógica sempre favorece quem o projetou. O mercado de vestuário esportivo no Brasil não é diferente. Os modelos nos catálogos, as paletas de cor, os nomes das marcas: tudo comunica para quem o produto foi pensado.

Quando criei a DePretoPraPreto, a primeira decisão não foi sobre tecido nem sobre preço. Foi sobre estética. Acredito que estética é política, e que uma marca que se esquiva dessa conversa está, na prática, tomando um lado.

Quando a estética encontra a estratégia, as pessoas não conseguem deixar de notar. E no empreendedorismo negro, a estética nunca foi decoração, sempre foi a mensagem.

Isso muda tudo no processo de construção. Cada jersey que a gente lança passa por uma pergunta simples: isso representa quem a gente é, ou é mais uma tentativa de parecer palatável para um público que nunca foi o nosso? Essa pergunta elimina muita coisa rápido.

Na Feira Preta, o público lê essa intenção de imediato. Não existe enganar quem cresceu aprendendo a decodificar o que é pra eles e o que não é.

O Que o Mercado Chama de Risco, a Comunidade Chama de Casa

Quando fui buscar referências para estruturar o modelo de negócio, percebi que a maioria das frameworks que aprendi no MBA da FGV parte de um pressuposto invisível: que o empreendedor começa neutro, sem identidade, sem contexto cultural, e que o mercado é um terreno aberto onde o melhor produto vence.

Para empreendedores negros no Brasil, esse pressuposto é uma ficção.

O capital não chega igual. O acesso a redes de distribuição não é igual. A credibilidade presumida numa reunião com investidores não é igual. Fingir que essas assimetrias não existem não é pragmatismo, é negligência estratégica.

O que a Feira Preta me deu foi algo que nenhum pitch deck substitui: uma comunidade que já acredita na sua relevância antes de você abrir a boca. Isso não é caridade. É o reconhecimento de que confiança, no empreendedorismo negro, se constrói de dentro para fora, não de fora para dentro.

Aprendi a olhar para esse ambiente como um laboratório. As conversas no estande valem mais do que qualquer pesquisa de persona que eu poderia encomendar. As pessoas me dizem o que sentem, o que falta, o que elas nunca pediram mas sempre quiseram. É dado qualitativo do mais rico.

Identidade Não É Posicionamento, É Fundação

Muita gente vê marcas como a DePretoPraPreto e classifica como "nicho". Entendo o raciocínio, mas discordo da premissa. Nicho sugere limitação. O que tenho é precisão.

Precisão significa que cada decisão criativa, cada parceria, cada aparição pública carrega coerência. Não preciso explicar para o meu público por que estamos na Feira Preta e não num evento genérico de ciclismo. A escolha já diz tudo.

Na minha experiência profissional, os melhores sistemas de segurança de dados não são os que tentam proteger tudo de uma vez. São os que sabem exatamente o que proteger e por quê. Construir uma marca com identidade cultural funciona pela mesma lógica: clareza sobre o núcleo elimina ruído e cria consistência.

O empreendedorismo afro-brasileiro não precisa pedir licença para o mercado mainstream. Precisa construir a própria infraestrutura, os próprios canais, as próprias referências de sucesso.

Naquele sábado na Feira Preta, depois que a mulher disse que nunca tinha se imaginado assim numa roupa de ciclismo, ela ficou em silêncio por um momento. Depois perguntou se tinha o jersey no tamanho dela. Tinha. Ela comprou dois.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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