Wellness

O que o meu corpo me ensinou que nenhum dashboard conseguiu

Era uma terça-feira às 5h47 quando percebi que estava com o coração batendo em 162 bpm parado, sentado na beira da cama. Não tinha saído de casa ainda. O Garmin no meu pulso piscava aquele número vermelho como se estivesse me acusando de algo. Eu tinha dormido seis horas. Tinha comido bem no dia anterior. No papel, tudo estava certo. O dado estava certo. Mas meu corpo avisava que alguma coisa havia quebrado.

Esse momento me perseguiu por meses. E foi ele, mais do que qualquer pesquisa de mercado ou pitch deck, que me empurrou para construir a afterALL. Porque o que eu vivia naquela manhã não é uma história de ciclismo. É uma história sobre o que acontece quando a tecnologia coleta tudo e entende pouco.

Dados sem contexto são só barulho

Passei mais de quinze anos trabalhando com proteção de dados em empresas como Symantec, Forcepoint e BigID. Aprendi a separar dado de informação, informação de insight. Sei que volume não é valor.

O problema é que no mundo da performance humana, a gente ainda trata dado como troféu. Quantas horas você dormiu. Quantos watts você sustentou. Qual foi sua variabilidade cardíaca. Número sobre número, empilhado em telas bonitas, sem uma pergunta honesta sobre o que tudo aquilo significa para aquela pessoa específica, naquele momento específico da vida dela.

Um atleta amador que acabou de perder o emprego não tem o mesmo sistema nervoso de dois meses atrás. Uma mãe que treina às 5h da manhã porque é o único momento do dia que é dela não responde ao estresse da mesma forma que um jovem solteiro dormindo oito horas. A métrica pode ser idêntica. A história por trás dela, completamente diferente.

Performance não é o que você consegue fazer no seu melhor dia. É o que você consegue sustentar nos dias em que tudo conspira contra você.

A afterALL nasceu dessa tensão. A ideia central é simples de enunciar e difícil de executar: usar tecnologia para escutar o ser humano de verdade, não para substituir essa escuta por um algoritmo que diz o que você quer ouvir.

O atleta amador como o usuário mais honesto do mundo

O atleta de elite tem estrutura. Tem preparador físico, nutricionista, psicólogo do esporte, fisiologista. Quando algo sai do trilho, tem alguém para interpretar o sinal e ajustar o plano.

O atleta amador tem o aplicativo. Só o aplicativo.

Isso não é crítica à tecnologia. Pelo contrário. É um convite. Existe uma lacuna enorme entre o que as ferramentas disponíveis prometem e o que elas entregam para quem corre uma meia maratona depois do trabalho, pedala nos fins de semana e ainda tenta dormir direito numa cidade barulhenta.

Esse usuário é o mais honesto do mundo porque ele não tem margem para mentir para si mesmo por muito tempo. O corpo cobra. E cobra rápido.

Na DePretoPraPreto, convivo com ciclistas que constroem identidade dentro do esporte, não só performance. A bike é ferramenta de pertencimento, de saúde mental, de afirmação. Quando uma pessoa negra entra num pelotão majoritariamente branco e sustenta o ritmo, ela carrega um peso simbólico que nenhum sensor mede. Esse dado existe. A gente só ainda não aprendeu a perguntar por ele.

Disciplina não é rigidez. É escuta sistemática.

A palavra disciplina virou sinônimo de dureza. Acordar cedo, não reclamar, aguentar. Mas a disciplina que me interessa, a que vi funcionar em atletas de alto rendimento e em profissionais que sustentam carreira longa, é outra coisa.

É a capacidade de prestar atenção. Todo dia. Com consistência.

Prestar atenção ao que o corpo pede antes que ele grite. Prestar atenção ao estado mental antes de uma reunião difícil. Prestar atenção ao padrão que se repete nos seus dados, não para otimizar a performance deste mês, mas para entender quem você é como sistema vivo ao longo do tempo.

Tecnologia bem aplicada ao bem-estar humano não automatiza a disciplina. Ela cria as condições para que a disciplina se aprofunde. Há diferença enorme entre um app que te manda notificação para tomar água e uma plataforma que percebe, ao longo de três semanas, que você dorme pior quando viaja a trabalho e que isso impacta seu rendimento no treino de quinta-feira.

Um é lembrete. O outro é espelho.

Naquela terça-feira às 5h47, o que eu precisava não era de mais um dado. Precisava de alguém, ou de algo, que me perguntasse: o que aconteceu nos últimos dez dias? O Garmin registrou tudo. Mas ninguém fez a pergunta.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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